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Por Sebastião Kupessa

 

 

Ricardo Lumengo é o africano mais famoso na Suiça, por ter sido o primeiro Conselheiro Nacional (Deputado) de origem africana, na legislatura 2008-2012. Advogado e político (membro do Movimento Sócio-Liberal-MSL), foi ainda antigo membro do Concelho Comunal de Biena (parlamento municipal da cidade ) e deputado no parlamento provincial do cantão de Berna.

 

A sua entrada no parlamento provocou grande sensação na imprensa internacional, enquanto que a imprensa angolana, onde o deputado é originário, primou pelo silêncio. Ricardo Lumengo, foi convidado da FARA (Fórum Angolano de Reflexão e de Acção), onde concedeu esta entrevista, à margem do encontro, que o Embaixador de Angola na Suíça, Oswaldo Varela dos Santos, manteve, com a comunidade angolana da Suíça Oriental. A entrevista realizou-se, na presença do seu assessor de imprensa, Nelson Marques .


       53304146-8517936.jpg                         Ricardo Lumengo a discursar, na tribuna do parlamento federal suìço.

 


 

Muana Damba: Kiambote kiaku (saudações), a Ricardo Lumengo.

 

Ricardo Lumengo: Matondo, kiambote ngina'nga (estou bem obrigado).

 

Que faz um político suíço e antigo Conselheiro Nacional (deputado) do Parlamento Federal, numa reunião do Corpo Diplomático com angolanos na diáspora?

 

Como sabe, as minhas origens são africanas, sou angolano e suíço, possuo a dupla nacionalidade e sou ainda assessor jurídico, num centro intercultural, que lida no dia-a-dia, com problemas da comunidade estrangeira em geral e africana, em particular. O Sr. Embaixador representa, em primeira linha, a República de Angola na Suíça, logo as informações que transmite à comunidade angolana, devem ser escutadas com muita atenção, para os angolanos estarem sempre atualizados, com o que se passa no nosso País. Angola deve estar sempre no coração de todos os angolanos, dentro ou fora de Angola.

 

 

Apesar de ter-se naturalizado suíço, continua a manter laços com África e neste caso particular, com Angola, em que maneira?

 

Sim, continuo a manter o fervor do meu compromisso político e social. Assim ponho em prática o meu sonho de sempre, o de transmitir toda a minha experiência política e profissional adquirida ao longo dos anos na Suíça, a África em geral e em particular à minha terra natal, Angola, na área do reforço dos instrumentos democráticos, de ajuda humanitária e ajuda ao desenvolvimento, em geral.

 

Angola apesar do desenvolvimento económico a dois dígitos, ainda passa por algumas dificuldades. Como pensa contribuir para ajudar as populações a minorar estes problemas ?

 

Lidero um projeto para combater a malária na qual sou responsável pela aquisição e distribuição de medicamentos e ainda instrumentos para dispensários e serviços de assistência médica, para a prevenção e tratamento da malária, na África Central. Participo regularmente, com vários grupos de trabalho, em temas como, a questão da boa governação e desenvolvimento sócio-económico, do continente Africano.

  Ricardo Lumengo em St Gallen 098

           Ricardo Lumengo com o Sr. Osvaldo dos Santos Varela, embaixador de Angola na Suíça

 

 

O embaixador de Angola na Suiça, tem denunciado com alguma frequência, estrangeiros que têm passaporte angolano e que por essa razão se fazem passar por angolanos, reclamando da nacionalidade angolana, o que pensa sobre esta matéria?


Sim tem toda a razão, existem muitos estrangeiros que se fazem passar por angolanos, estou plenamente de acordo com o Sr. Embaixador e condeno veemente tais comportamentos.

 

Houve no passado, alguns angolanos, nas redes sociais, também a dizer que és cidadão originário da RDC (República Democrática do Congo) e a questionarem as suas origens.

 

É só quem não conhece o meu passado, nem o passado da minha família, pode confundir a minha naturalidade, porque não tem acesso a informação clara, sobre as minhas origens. Como nunca publiquei nos órgãos de informação, o meu registo de nascimento, certidão, B.I., ou passaporte, quem não me conhece, pode interrogar-se sobre as minhas origens. Mas é um pensamento que ainda existe em alguns angolanos, de que todos os angolanos naturais do norte de Angola, são congolenses ou zairenses, assim como os do leste são zambianos, ou os do sul são namibianos. Termino esta questão, com uma frase que os Bakongo’s angolanos costumam dizer: “longa muana kuenda ku zando, ka ndio tukidi ku zando ko, ensina o filho que vai à praça e não o quem vem da praça.”

 

Na sua biografia publicada há dias, descobrimos com estupefação, que afinal és filho de Miguel Simão Dialó, um dos grandes nacionalistas angolanos, foi membro fundador da FNLA e antigo Director dos Assuntos Políticos do Partido Democrático de Angola.

 

Sim, Miguel Simão Dialó é o meu pai. Foi Director dos Assuntos Políticos do PDA, mas esse foi apenas um dos cargos que o meu pai teve durante o tempo de combatente pela libertação de Angola, contra o colonialismo português, tendo ocupado vários cargos de chefia. A determinado momento da luta de libertação nacional, contra o colonialismo português e com a integração do PDA na UPA em 1962, dando origem à FNLA, o meu pai foi obrigado a deixar a família em Angola e a refugiar-se no antigo Congo/Zaire hoje RDC (República Democrática do Congo), para evitar ser preso pelas forças coloniais da época, a PIDE (polícia política portuguesa), continuando a partir do exterior, a luta de libertação de Angola, num contexto mais amplo (como quadro executivo).

 

Para além destes cargos políticos, que outros ocupou o seu pai, durante o exílio no Congo/Zaire?

 

Inicialmente foi o Presidente da JUPA (Juventude da União das Populações de Angola), mas também ocupou outros cargos na UPA/FNLA bem como no GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio), formado por dirigentes da UPA/FNLA e ainda foi Vice-Presidente do MDIA (Movimento de Defesa dos Interesses de Angola).

 

Referiu-se ao GRAE e ao MDIA, quando é que o MDIA se transformou em FDLA e porque é que aparece ligado a certa altura, na história de Angola e do MPLA?

 

Num determinado momento, o MDIA, sempre com o meu pai na Vice-presidência, juntou-se à FDLA (Frente Democrática para a Libertação de Angola), a 10 de Julho de 1963, quando o Cda Agostinho Neto  (mais tarde primeiro Presidente de Angola) - anunciou a formação desta Frente, propondo aos outros movimentos, ligarem-se à FDLA. Esta frente, passado pouco tempo desmoronou-se e o MPLA gradualmente restabeleceu as suas credenciais, como um movimento nacionalista legítimo, tendo absorvido por completo a FDLA.

 

O que era a FDLA exactamente e quem eram os responsáveis por esta Frente?

 

A FDLA era uma frente formada por três facções, provenientes do MPLA, Ngwizako e do MDIA, sendo dirigida pelo Cda. Agostinho Neto. Dentro dos elementos da facção do MPLA que fizeram parte da FDLA encontravam-se para além do Cda. Agostnho Neto, ainda os Cda’s Lúcio Lara e Deolinda Rodrigues.

 

O seu pai também tinha o nome de Dialó, este não é um nome Senegalês?

 

Dialó, é um nome muito utilizado na África do Oeste, portanto também no Senegal. Este nome foi dado ao meu pai, como um nome de “guerra”, como muitos outros guerrilheiros e dirigentes da luta de libertação de Angola, também utilizaram. O meu pai tinha esta alcunha, no tempo da guerrilha, antes de ficar prisoneiro de Holden Roberto, na Base de Kikunzu, durante 6 anos anos.

 

Falando da prisão de seu pai, o que fez o seu pai de concreto, para permanecer encarcerado, por longo tempo, sob as ordens de Holden Roberto?

 

O meu pai tinha feito declarações na imprensa, criticando a gestâo da luta pela libertação de Angola de Holden Roberto, o etnocentrismo, o tribalismo que se fazia sentir na altura e sobretudo a extensão do poder a outras tribos de Angola. O meu pai defendeu ainda a realização de um congresso reagrupando todas as forças que lutavam contra a ocupação colonial portuguesa. Foram estes os “crimes” que o meu pai cometeu, para Holden Roberto ordenar a prisão do meu pai, por 6 anos.

 

O jornal congolês "Courrier d'Afrique", com data de 7 e 8 de Agosto de 1966, escreveu que seu pai tinha sido preso na antiga Leopoldville e posteriormente transferido para a base de Kinkuzu, assim que essa informação tornou-se pública, provocou a indignação dos estudantes universitários angolanos, organizando em seguida manifestações de apoio e a exigir a sua libertação. Pode-nos descrever, o que aconteceu ?

 

As unidades de elite do GRAE, apoiadas e sob orientação de elementos do exército congolês, sequestraram o meu pai e depois levaram-no para a base de Kinkuzu, onde foi submetido a um interrogatório duríssimo e feito na presença do próprio Holden Roberto. Mas como o meu pai não alterou nunca as suas convicções, foi condenado a vários anos de prisão. Eu, a minha mãe e irmãs, fomos obrigados a viver na base de Kinkuzu, em residências anexas à prisão.

 

Mas Kinkuzu não era a base dos maquisards da FNLA?

 

Sim, era a base dos guerrilheiros da FNLA, era ainda a residência dos refugiados angolanos e também uma terrível prisão, onde estavam presos todos os que se opunham à ideologia da FNLA e de Holden Roberto. O meu pai partilhou a prisão com o conhecido activista do MPLA, Emmanuel Nlamvu Norman, pelas mesmas razões. Eu passei a minha infância em Kinkuzu onde fiz os meus estudos primários. Assistia muitas vezes à partida dos maquisards para Angola, para combaterem as forças colonialistas portuguesas. Via alguns regressarem feridos e outros que nunca mais regressaram, porque tinham tombado em combate e ficaram sepultados nos campos de batalha. Sou filho dos altos-e-baixos da revolução angolana, filho de um dirigente feito prisioneiro político da FNLA e ainda residente forçado de Kinkuzu.

 

Como residente de Kinkuzu, lembra-se da famigerada e absurda execução dos principais comandantes do ELNA, em princípios do ano 1972?

 

Recordo-me sim, nessa altura as relações entre Holden Roberto e o comando militar de Kinkuzu, eram muito tensas. O meu pai naquela época, não teve outra saìda que unir-se ao comando militar, que se opunha a Holden Roberto, para evitar represálias a si e a toda a família, na altura viviamos ainda, na base. Curiosamente, o meu pai encontrava-se nessa altura já em liberdade condicional e pela primeira vez, depois de 6 anos de prisão, tinha obtido uma autorização, para se ausentar da base de Kinkuzu.

 

Porque se deu a revolta de Kinkuzu e o que pretendiam os revoltosos da base, em particular?

 

Foi durante a ausência do meu pai de Kinkuzu, que o desintendimento entre o comando da base e Holden Roberto agravou-se. As comunicações entre a base e direcção da FNLA por um lado e com o GRAE por outro, tinham sido completamente cortadas, incluìndo o abastecimento aos militares e refugiados angolanos. Durante semanas, Holden Roberto perdeu o contacto total, com a sua base principal. Os comandantes da base e as chefias operacionais dos guerrilheiros, exigiam a substituição do líder da FNLA.

 

O seu pai nesta altura, é reeintegrado na direcção da FNLA, como é que isso aconteceu?

 

Sim, Holden Roberto tinha concedido pouco antes da revolta de Kinkuzu a liberdade condicional e autorização para o meu pai se ausentar da mesma e se reunir com ele. Foi durante essa reunião que o meu pai teve com Holden Roberto, que o próprio reeintegrou o meu pai na direcção da FNLA e recomendou-o, para não voltar à base de Kinkuzu, (já devia estar a preparar o ataque militar contra os revoltosos da base). Assim que os revoltosos da base souberam da reeintegração dele na direcção da FNLA, o comando dos revoltosos, incluìu logo o meu pai, na lista de traidores. Lembro-me de ter sido obrigado a cantar canções revolucionárias, num grupo de crianças, contra o meu próprio pai. Obrigaram-nos a entoar canções contra Holden Roberto, onde o qualificava de traídor da causa angolana e de ser reacionário.

 

Como estava a viver a sua família na base, neste periodo conturbado e sem a presença do seu pai?

 

A situação da minha família piorou, a minha mãe, irmãs, irmão e minha, tornou-se num inferno, muito pior que nos primeiros anos, da nossa prisão. Os militares vigiavam e seguiam todos os nossos movimentos, sobretudo os da minha mãe, apesar de se encontrar grávida. Na casa prisão, tínhamos de dormir com 5 militares fortemente armados.

 

Como é que conseguiu Holden Roberto dominar a situação e os revoltosos?

 

Holden Roberto, gozava do total apoio do governo zairense da época. Tropas de Elite de Mobutu, assaltaram a base com meios importantes. A brigada mecanizada de Mbanza Ngungu que dista apenas alguns kilómetros da base de guerrilha angolana, contribuiu muito para a sua recuperação, algumas horas depois, os rebeldes tinham sido completamente neutralizados.

 

Quando foi que se deu a execução dos revoltosos?

 

Depois da normalização da situação, Holden Roberto veio num helicóptero do exército zairense. Todos os comandantes de grau superior que se encontravam na base, foram fugilados. O pelotão de execução contou com a presença do próprio Holden Roberto, que antes da execução de cada guerrilheiro, chamava-o pelo seu nome, insultava-o e humilhava, em kikongo.

 

Qual era a origem dos revoltosos e foram apenas executados militares?

 

Foram igualmente mortos, muitos outros homens. Houve muitas cenas macabras em Kinkuzu! Os comandantes fuzilados, eram na sua maioria operacionais, ou seja, filhos de Angola, heróis da Pátria. Holden Roberto não quiz saber a razão das suas reivindicações, nem lhes deu a possibilidade de um julgamento honesto.

 

Lembra-se de algum Cdte em particular, dos que foram fuzilados?

 

Sim, entre os que foram fuzilados, guardo para sempre, na minha memória, dois altos responsáveis militares executados, o Cdte Bengo e o Cdte Belito, porque sempre foram muito atenciosos comigo, durante o tempo de prisão do meu pai. Se o meu pai não tivesse aproveitado da liberdade condicional que lhe tinha sido concedida, por Holden Roberto, para ausentar-se de Kinkuzu, nessa altura, provavelmente também tinha sido fuzilado, como tantos outros.

 

Sendo filho de um dirigente da FNLA e jovem estudante da base  de Kinkuzu, portanto um jovem de “sangue” desta organização de libertação, como se “converteu” à Juventude do MPLA, anos depois?

 

Nâo houve nenhuma mudança ideologica, porque nunca fiz parte da FNLA. Estive no campo de Kinkuzu, porque era filho de um prisioneiro polítco, por isso tive que viver no campo e estudar. Depois de tudo o que vivi neste campo de prisioneiros e dirigido com pulso de ferro pela FNLA, nunca poderia pertencer a uma organização, que maltratou os meus pais e os aprisionou, apenas por terem pontos de vista diferentes dos seus dirigentes. A FNLA, nunca teve a minha simpatia e muito menos, a minha militância.

 

 Ao menos, a mudança ideológica, foi radical.

 

Na JMPLA fui muito bem acolhido. Nesta organização, não interessava o passado de ninguém e era aberta a todos angolanos, independentemente das suas origens classes sociais, cor de pele, ou ainda religião. Isto agradou-me muito. Houve antigos companheiros que me criticaram muito, por ter optado pelo “braço” juvenil do MPLA.

 

Quando e aonde foi incorporado pela primeira vez, na JMPLA?

 

Foi em 1979, na Escola do Terceiro Nível "Juventude em Luta", pertenci ao seu núcleo da JMPLA, depois fui transferido para Corimba, na Samba Grande, onde residia. Lembro-me por exemplo dos meus antigos camaradas da JMPLA, Manuel Alberto, que era o responsável na Samba, de Guilherme Xavier, ou ainda Paulino Ngunza, grandes camaradas e amigos de luta. Quando militava na JMPLA, o responsável máximo em Angola, era na altura, o actual Ministro da Administração do Território, Cda. Bornito de Sousa.

 

Ricardo Lumengo em St Gallen 027

Ricardo Lumengo e o seu assessor da imprensa, Nelson Marques (a extrema direita), com o corpo diplomático angolano acreditado em Angola.

 

Para terminar, qual é a opinião que têm, as autoridades Suíças, do comportamento da diáspora angolana?


De forma geral as impressões sobre os angolanos são positivas. Não tem havido problemas, no que concerne a inserção de angolanos, na sociedade Suíça, pois é uma comunidade que se integra mais fácilmente em relação às outras comunidades. Os angolanos esforçam-se para aprender as línguas oficiais do País- que como sabe, são três!- e o grau de delinquência é muito mais baixo ou até inexistente, em relação às outras comunidades. Isto pode ser confirmado pelas estatísticas oficiais e pelo Sr. Embaixador de Angola, na Suíça. Enfim, até o facto do primeiro deputado negro no Parlamento Federal, ser angolano, não é um acaso e prova isso mesmo!

 

Muito obrigado pelo tempo dispensado e pelas informações preciosas e históricas que nos facultou. Os nossos agradecimentos e votos das maiores felicidades, na sua vida pessoal e carreira profissional.

 

Também agradeço a vossa presença. É sempre um prazer para mim, trocar impressões com os meios de comunicação social de Angola. Saudações a todos.

 

 

 

                                                                                                Muana Damba

 

 

 

 


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