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Por  Leandro Narloch


 

Se já estavam ricos com a venda de escravos aos árabes, os reinos africanos lucraram muito mais com o comércio pela costa do oceano Atlântico. Trocando pessoas por armas, o reino de Axante [ou Ashanti] expandiu seu território. O rei Osei Kwame (1777 -1801), graças aos escravos que vendia, tinha palácios luxuosos, além de estradas bem aparadas que ligavam as cidades de seu império centralizado. Outro exemplo bem documentado é o reino do Daomé, atual Benin (um país estreito entre Toga e Nigéria). No século 18, havia por lá um Estado com burocracia militar, estradas, pontes vigiadas por guardas e cidades com 28 mil pessoas.

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Os próprios africanos lideravam o tráfico

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Nessa região e em muitos outros reinos, eram os próprios africanos que operavam o comércio de escravos. A “dominação européia” se restringia a um forte no litoral, de onde os europeus só podiam sair com a autorização dos funcionários estatais. Quando viajavam, eram sempre acompanhados por guardas. O rei controlava o preço dos escravos e podia, de repente, mandar todos os europeus embora, fechando o país para o comércio estrangeiro. Também podia dar uma surra no branco que o irritasse. Foi isso que fez, em 1801, o rei Adandozan com Manoel Bastos Varela, diretor do forte português em Ajudá. Mandou embarcar o diretor «nu e amarrado» para o Brasil.

 

Portugueses pedem desculpas aos africanos

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O soberano do Daomé podia reclamar diretamente com a rainha portuguesa. Seis anos antes de Manoel Varela ser enviado pelado para o Brasil, o rei anterior, Agonglô, escreveu uma longa carta à rainha Maria I. Com muita cordialidade, reclamava do diretor do forte português na cidade de Ajudá, Francisco Antônio da Fonseca e Aragão, «o qual esquece completamente as obrigações do seu cargo, preocupando-se somente em aumentar suas próprias finanças». Na carta de 20 de março de 1795, o rei ainda pede que o diretor de forte seja castigado «de maneira exemplar, como é costume fazer em semelhantes situações». Quem respondeu a carta foi o príncipe dom João, futuro dom João VI, que anos depois fugiria com toda a corte para o Brasil. Dom João respondeu ponto por ponto. Aceitou demitir o diretor do forte e pediu desculpas por não enviar uma galé carregada com ouro e prata, como o rei africano tinha pedido:

 

«Farei o necessário para vos dar satisfação quando a coisa for possível, tão logo as circunstâncias me permitirão, porque presentemente me é impossível fazê-lo, não somente por falta de tempo, mas por outras razões sobre as quais é supérfluo informar-vos, desejando em tudo agradar-vos como importa à minha fiel amizade.»

 

Africanos tinham escravos brancos,… que pediam socorro!

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Para se comunicar com os portugueses, o rei do Daomé usava algum escravo português que tinha entre seu séquito. Eram geralmente marujos que acabavam capturados quando o Daomé atacava os vizinhos. Se Portugal não se interessava em pagar resgate para libertá-los, eles continuavam servindo ao rei africano. Trabalhando de intérpretes e escrivães, esses escravos brancos aproveitavam, nas cartas que escreviam a mando do líder negro, para incluir mensagens secretas de socorro. Como ninguém além deles falava português, não corriam o risco de ter a mensagem flagrada. Numa carta do rei Adandozan de 1804, o escrivão “branco” Inocêncio Marques de Santana incluiu um pequeno recado, uma espécie de «me tira daqui pelo amor de Deus» a dom João: «Eu, escrivão deste Cruel Rei, que aqui me acho há 23 anos fora dos portugueses, Vossa Magnificência queira perdoar meu grande atrevimento», escreveu Inocêncio, avisando sobre «como tratam os pobres portugueses nesta terra».

 

Os negros queriam o monopólio do tráfico de escravos

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Os intérpretes brancos ajudavam os nobres africanos durante viagens diplomáticas. Entre 1750 e 1811, embaixadores africanos foram à Bahia e a Portugal com o objetivo de negociar o preço de escravos e pedir o monopólio de venda aos portugueses. Segundo o etnógrafo Pierre Verger, foram quatro viagens diplomáticas de enviados do rei do Daomé, duas dos reis de Onim (hoje Lagos) e outra do chefe de Ardra (Porto Novo). Tanto no Brasil quanto na corte em Portugal, os diplomatas e seus auxiliares foram recebidos com luxo. A partir de 1795, dois diplomatas do Daomé passaram quase dois anos sob os cuidados do reino português. Foram para a Bahia e de lá para Portugal. Na sede do reino, um deles morreu de resfriado e outro foi batizado, ganhando o nome real de João Carlos de Bragança. Apesar da morte do representante, a comitiva voltou a Salvador para desfrutar dos confortos das instalações portuguesas.

 

O Brasil servia de exílio político para reis africanos derrotados

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O comércio direto para o Brasil fazia nobres africanos se interessarem pela política interna do reino português. Em 1822, quando dom Pedro I deu o grito às margens do Ipiranga, o obá Osemwede, do Benin, e Ologum Ajan, de Lagos, foram os primeiros a reconhecer a independência do Brasil. O país também servia de exílio, onde negros nobres vinham passar um tempo depois de derrubados do trono. O príncipe Fruku, do golfo da Guiné, foi posto num navio negreiro por um adversário político. No Brasil, ganhou o nome de Jerônimo, mas deve ter ficado pouco tempo como escravo. Se os brasileiros o encaravam como um cativo qualquer, os africanos viam nele um príncipe. «Juntando os seus tostões, os patrícios de Fruku não devem, portanto, ter demorado em comprar-lhe a liberdade», escreveu o historiador Alberto da Costa e Silva, um dos grandes especialistas em história do tráfico atlântico. «Liberto, Jerônimo deixou-se ficar em Salvador, já que não podia, sob pena de ser reescravizado, retornar ao Daomé.» Vinte e quatro anos depois, com a morte do inimigo que o mandou ao Brasil, Fruku voltou à África para disputar o trono do Daomé, desta vez com o nome de “Dom Jerônimo, o brasileiro”.

 

A velha história: a troca de gente por armas

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Os nobres africanos dependiam da venda de escravos para manter seu poder. Vendendo gente, eles obtinham armas. Garantiam assim a expansão do território e o domínio das terras já conquistadas. Sem a troca de escravos por armas, tinham a soberania do território e a própria cabeça ameaçadas. Como observa Alberto da Costa e Silva:

«Para as estruturas de poder africanas, a venda de escravos era essencial à obtenção de armas de fogo, de munição e de uma vasta gama de objetos que davam status e prestígio aos seus possuidores. O sistema de troca de seres humanos (geralmente prisioneiros de guerra e presos comuns ou políticos) por armas de fogo e outros bens consolidara-se ao longo dos séculos, desde o primeiro contato com os europeus na África, e não podia ser facilmente substituído pelo comércio normal. Há quem pense que o interesse de alguns africanos na manutenção do tráfico era ainda maior do que o dos armadores de barcos negreiros ou o dos senhores de engenhos e de plantações no continente americano.»


Para essa espiral romper o ciclo, foi preciso entrar em cena um elemento externo e poderoso: a Inglaterra. O ideal de liberdade dos negros, que todas as pessoas sensatas defendem hoje em dia, surgiu somente por causa dos protestos eufóricos e do poder autoritário dos ingleses.

 

 

                                                                                                             Fonte:http://www.blogdoambientalismo.com

 

 

 

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