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Por FRANCISCO SOARES

Fotos de ATD- Ass. Tchiweka de Documentação


 

Pela influência que deixou, pela recepção que teve mas, sobretudo, pelos poemas que escreveu, Viriato da Cruz pode ser considerado o grande paradigma da literatura nacionalista angolana e o seu máximo expoente poético. Os poemas que escreveu continuam a ser populares em Angola, conhecidos e cantados em Portugal, antologiados por toda a parte. O nome e a obra circulam hoje pela Internet, em páginas lusófonas, francófonos e anglófonas de poesia ou crítica. “Namoro”, por exemplo, tornou-se um clássico ao mesmo tempo da música popular angolana e da portuguesa.Quais as razões do sucesso num poeta de que saiu um pequeno livro, com escassos poemas e que, segundo tudo indica, trocou muito cedo a poesia pela política?

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Porque foi ele tido por “possivelmente o poeta representativo da poesia angolana” (Mário António, A Formação da Literatura Angolana (1851-1950, Lisboa, IN-Cm, 1997, p.342), “o melhor realizado dos poetas angolanos”? Segundo Mário António, o que “iria fixar, para os (poemas) de Viriato, uma posição ímpar na poesia angolana”, tornando-o no primeiro poeta angolano”, era “o sentido de descoberta”, que faria com que não se soubesse “onde começa o poeta e onde começa a sua gente”…

 


O sentido da “descoberta” (a do «Vamos Descobrir Angola»!)  especifica-se nos poemas de Viriato da Cruz
sistematicamente, sendo “cada um deles (…) um caminho aberto à pesquisa da forma e do fundo angolanos de uma expressão literária. Em cada um deles se utiliza um meio próprio para essa pesquisa. O seu aspecto prospectivo é o que mais se impõe…A recorrência de analogias e oposições permite ligar as tradições africanas (e de forma geral, as tradições) à modernidade. Tanto quanto a “rumba”, são recursos conectores e não diferenciadores. A sua utilização remete para aquela parte dos propósitos enunciados por Viriato da Cruz em que ele escreve que o “Vamos Descobrir Angola” apelava ao “estudo das correntes modernas da cultura estrangeira” ao mesmo tempo em que exigia a expressão dos interesses populares e da  autêntica natureza africana”. Ao falar nisto ele tinha em vista os dois perigos da época no meio literário angolano: o dos Cãnones ultrapassados e o do exotismo. Para actualizar a literatura angolana, ele, que se
colocava na sequência dos esforços de Cordeiro da Matta e outros, falava nas “ correntes modernas” da cultura globalizada; para evitar o exotismo, falava na “autêntica natureza africana”. Assim constituía, sobre mais uma oposição, a sua bífida identidade literária: ao mesmo tempo “moderna e “autêntica”.

 

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Serão de menino

 

 

Na noite morna, escura de breu,

enquanto na vasta sanzala do céu,

de volta de estrelas quais fogaréus,

os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu ao quente da voz de suas avós,
meninos se encantam de contos bantos...

Era uma vez uma corça dona de cabra sem macho

 

..........

 

Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
(“- Tão tarde que ele chegou!”)

Abriu a boca e falou -

deu a sentença final:
“- Não tenham medo da força!

Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça.”


Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas

 

os meninos se apertam de olhos abertos:
- Eué
- É casumbi...
E a gente grande -bem perto dali
feijão descascando para o quitandea gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...

 

 

                                                                                                                    Fonte:  Novo Jornal

 

 

 

 

 

 

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