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Por: JEAN LÉONARD TOUADI, Jornalista da RAI2

 

A peregrinação à aldeia de Simon Kimbangu, no Sul do Congo (ex-Zaire), é longa e cansativa: ali nasceu o fundador não apenas de um movimento religioso mas também um instrumento de luta política contra a opressão colonial e a alienação cultural.

 

 

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Os peregrinos que se dirigem a Nkamba vão vestidos com os seus trajes verdes – símbolo da esperança – e brancos – sinal de pureza de vida. Cânticos de alegria e música ritmada pelo som das flautas e dos tantãs acompanham a sua marcha em direcção à «Nova Jerusalém». À cabeça do cortejo, jovens com o estandarte dos kimbanguistas: um coração vermelho (símbolo do sangue derramado por Cristo e garantia de vitória sobre as forças do mal) com uma cruz no meio; alguns estandartes têm uma serpente estilizada em volta da cruz. Por debaixo do coração, dois ramos de palmeira cruzados, símbolo da vitória da cultura congo contra as tentativas de alienação cultural e política perpetradas pelo Ocidente imperialista.


Vêm sobretudo do Baixo Congo, feudo da religião kimbanguista, de Kinshasa e das províncias mais próximas. Contudo também há gente vinda do Congo-Brazzaville, de Angola e de outros países da África central para prestar homenagem e reafirmar a sua fé em Simon Kimbangu. Foi sobretudo a etnia bacongo, espalhada pelo Norte de Angola e bacia meridional do rio Congo, que mais foi atingida e aceitou a pregação do rebelde Kimbangu, que consideram «ngunza», herói, profeta e messias dos negros oprimidos. O fundador pertence a uma grande tradição histórica e cultural. É descendente e herdeiro de personagens do antigo Reino do Congo, que travaram lutas corajosas contra o arbitrário despotismo dos primeiros missionários portugueses.


Os grupos de fiéis iniciam, com muitos meses de antecedência, a preparação da peregrinação com uma actividade não apenas generosa mas também atenta às necessidades dos mais fracos. Organizam um mealheiro comum para as despesas rigorosamente comunitárias; dão particular atenção aos doentes, velhos e crianças; criam uma teia de solidariedade para com os outros fiéis, pelo que cada comunidade tem o dever de hospitalidade para com os peregrinos e o seu atendimento, o que leva a que nas aldeias haja frequentes momentos de oração e de convívio em conjunto. A alegria e a festiva liturgia que caracterizam estes encontros é muito contagiosa e atrai frequentemente fiéis de outras religiões. Não obstante a desorganização da rede de transportes durante e depois do «reinado» de Mobutu e agora com os perigos mortais causados pela guerra, o afluxo de peregrinos a Nkamba continua a crescer de ano para ano, percorrendo-se centenas de quilómetros a pé ou em meios de transporte de ocasião. As dificuldades da viagem e os sacrifícios de toda a ordem conferem até à peregrinação o valor de uma purificação espiritual e moral. A peregrinação ocorre durante todo o ano, mas tem os seus pontos altos entre 6 e 27 de Abril, a 12 de Outubro e na altura do Natal.

 

O profeta

 

Quem era Simon Kimbangu (1896-1951)? O fundador da religião kimbanguista – uma amálgama de elementos religiosos tradicionais congoleses e interpretação de alguns símbolos e verdades da fé do cristianismo –, depois de ter recebido uma breve educação na missão baptista da sua terra, teve uma série de visões que lhe deram a certeza da sua vocação. Começou então a apresentar-se como o salvador, que libertava do medo e da insegurança, para se reencontrar a liberdade religiosa e a autonomia. A sua pregação surgia como reacção à dura crise económica de 1930 e ao recrudescimento da repressão colonial.


Kimbangu assume o papel de profeta da raça negra. Na esteira das ideias de Gandhi, ele prega a não-violência e exorta os seus fiéis a abandonarem as práticas feiticistas e da poligamia. Organiza em Nkamba a desobediência fiscal e a recusa aos trabalhos forçados. O movimento obteve grande êxito entre os bacongos; Kimbangu acabou por ser detido em 1921 e condenado a prisão perpétua por conspiração contra a administração colonial. Morreu na prisão de Elisabethville, em 1951.


«A nova religião acaba por dar a um número cada vez maior de bacongos a sensação de pertencerem a um povo eleito, com a certeza de que o seu salvador o é também para toda a raça negra, em igualdade de condições com os fundadores das religiões reveladas. Dele se dirá mais tarde: “É o salvador de todos os negros, com o mesmo título dos salvadores das outras raças: Moisés, Jesus Cristo, Maomé e Buda.” Com o passar do tempo, o simbolismo ligado à figura de Kimbangu enriquece-se; torna-se o centro de uma autêntica cosmologia popular; de facto, ele “concentra em si” todas as esperanças de um povo que começa a sair da passividade introduzida pela dependência colonial» (G. Balandier, em As Religiões na Era do Colonialismo e do Neocolonialismo). É por isso que a peregrinação se desenrola à volta dos objectos e dos lugares frequentados pelo profeta. O primitivo pântano da fonte de Nkamba, alargado para acolher o afluxo de fiéis, é o local onde se realizam os vários ritos propiciadores de saúde, cura, purificação. Homens de um lado, mulheres do outro, ajoelham-se antes de mergulharem ou de levarem água para as suas casas.


O ponto mais alto da peregrinação é a oração no mausoléu onde o profeta foi sepultado, em cujo recinto cabem 37 mil pessoas. O peregrino ajoelha-se descalço diante do túmulo de Kimbangu e reza. Pode-se deixar em cima do túmulo um ramo de flores, símbolo da beleza do além. Nkamba infunde uma força extraordinária para enfrentar as dificuldades da vida: cada fiel pode pedir o que precisa para si, para a sua família ou para toda a aldeia. As fórmulas utilizadas são as que se empregavam outrora no culto dos antepassados. Em Nkama é possível celebrar a ceia sagrada com doces feitos de milho, banana ou outros produtos acompanhados com mel, no Natal, a 6 de Abril ou a 12 de Outubro (aniversário da morte de Kimbangu), em memória do ministério, dos sofrimentos, da morte e da vitória do profeta sobre a morte e o martírio. Sofrimentos que prosseguem na pobreza das grande maioria do povo kimbanguista.


Com a peregrinação de Nkamba, um povo inteiro recorda o exílio durante o período colonial; renova as promessas de um futuro de salvação não obstante os tormentos do presente, na fidelidade à própria identidade cultural e à exigência de alargamento da salvação a todos os negros expulsos do banquete de núpcias pagãs celebradas sobre a sua pele.

 

 

 


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