Publié par fara

 

NelsonMandelacomumacrianaAfrikanerlogoapssualibertaodapriso.jpg

                                 

 

Os sul-africanos brancos correm perigo depois da morte de Mandela? O rumor, que circula na Internet, tem tido pouco eco na África do Sul, mesmo que exista alguma inquietação sobre o futuro da reconciliação racial que o primeiro Presidente negro encarnou de forma icónica.


"A morte de Mandela pode ser uma viragem para o desastre", lê-se, por exemplo, num artigo publicado na página do Facebook do grupo extremista "Salvar os brancos sul-africanos".


Há quase 20 anos, quando caiu o regime racista do apartheid em 1994, muitos brancos tinham-se preparado para o pior. Condicionados há muito para desconfiarem do swart gevaar ("o perigo negro"), temiam ser atirados ao mar.

 

A profecia nunca se veio a concretizar. Pelo contrário. Eleito como o primeiro Presidente negro do país, Nelson Mandela pôs um manto por cima dos 27 anos que passou na prisão e nunca deixou de estender a mão aos seus opressores, tendo mesmo chegado a tomar chá com a viúva do arquitecto do regime de discriminação racial, Hendrik Verwoerd.

Mas isso não impediu que os medos ressurgissem de tempos a tempos. E a perspectiva do desaparecimento do pai da nação relançou os rumores. "Recebemos chamadas de pessoas preocupadas porque viram mensagens nas redes sociais, ameaçando matar os brancos depois da morte de Mandela", confirmou à AFP Ernst Roets, vice-presidente do lobby conservador AfriForum, que defende os interesses da minoria afrikaner, que estava no poder no regime segregacionista. "Investigámos mas não há nenhuma substância", disse Roets. "Pensamos que não há nenhuma razão para ter medo."


"Não acredito que as pessoas levem isto a sério", comentou por seu lado Esmi, uma afrikaner de 47 anos que ontem parou por momentos em frente ao hospital de Pretória onde está hospitalizado o herói nacional. "Acho que é bem mais o contrário. Como no Mundial de futebol [em 2010], estamos todos unidos".


No entanto o rumor foi levado suficientemente a sério pelo partido no poder, o ANC, que procurou dar garantias à minoria branca. "Nada nas nossas declarações e posições públicas diz que vamos atirar brancos para o mar", disse o porta-voz do partido, Jackson Mthembu, ao jornal New Age. "Madiba deixou a vida pública e o país não se desfez em ruínas", sublinhou, utilizando o nome de clã de Mandela, que foi afectuosamente adoptado pela maioria dos sul-africanos.


Já foi quase há uma década que o herói da luta anti-apartheid se retirou da via política e desde então nunca fez qualquer comentário sobre a actualidade do seu país. Fragilizado pela idade avançada e pelos anos que passou na prisão, já não é visto em público há cerca de três anos.


"Não há razões para preocupações", confirma Sherwin van Blerk, um responsável do Instituto Sul-africano de Relações Raciais (SAIRR). "Somos uma sociedade aberta e uma grande democracia."


Para Van Blerk as tensões já não são "entre raças, mas sim entre ricos e pobres". O problema é que a linha entre as duas coisas não é clara: a minoria branca (menos de 9% da população) continua a ser largamente mais rica do que a maioria negra (80%). O rendimento médio de uma família branca é seis vezes superior ao de uma família negra, segundo o último censo citado pela AFP.

 

 

As duas comunidades ainda se misturam pouco e a criminalidade endémica alimenta a desconfiança e os medos. Mesmo que a maioria dos 43 homicídios diários aconteçam nos bairros pobres dos negros, os brancos também enfrentam assaltos violentos nos seus bairros e ficam chocados quando há notícias de fazendeiros brancos assassinados.


Mas daí a acreditar que a violência vai explodir por causa da morte de Mandela vai uma grande distância. "Não tenho medo absolutamente nenhum", explica Natalie, que vive numa vila isolada no Nordeste do país. "Mas, por contrário, temo pelo legado de Mandela. As pessoas que estão no poder não têm ar de se interessar muito pela reconciliação."

O politólogo independente Olmo von Meijenfeldt reconhece que os medos podem ser alimentados pela "ausência de uma voz conciliadora no topo do poder". Mesmo que o Presidente Jacob Zuma tenha renunciado a cantar um hino dos seus anos de luta ("dêem-me a minha metralhadora"), já lamentou publicamente que a economia continue "principalmente nas mãos dos brancos" e "prometeu dar poder à comunidade africana".

 

 

 

                                                                                                                                                AFP

 


Pour être informé des derniers articles, inscrivez vous :

Commenter cet article