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Por Spirito Santo


 

 

Tendo Lukenyi Lua Nzama como mãe e Nimi a Nzima como pai, Nimi a Lukenyi, tido como o patriarca do povo Kimbundo, pelo que se conta, era um moço caçador que vindo dos lados do rio Kwangu se estabelecera com sua gente em Lemba, localidade perto de Matadi, bem próximo ao estuário do Rio Kongo. As migrações africanas que geraram o que seria mais tarde o império do Kongo, com um dos clãs chefiados por este "Nimi a Lukenyi " foram contemporâneas ás invasões bárbaras na Europa no século 14, mais ou menos na mesma época de Joana D’arc, na França.

 

Segundo dados documentados, em Janeiro de 1482 D. João II, já entronizado como rei, ordena que o navegador Diogo Cão parta em viagem de prospecção e “do famoso termo - descobrimento” da costa de África. Em 1483 ele chega à foz do Rio Zaire. Volta uns meses depois e se depara com muitos nativos com os quais não consegue estabelecer muita conversa, excepto sugerir que "voltarei daqui a pouco e que gostaria de conhecer o rei de todo este país". Diogo Cao deixou por lá desta vez quatro padres franciscanos com a missao de irem até onde reside o rei do lugar.

 

Em Abril de 1484 Cão sai de Lisboa para a segunda expedição a África. Nesta sua volta ao Kongo, aguarda por muito tempo pela chegada de padres que havia deixado na viagem anterior. Não há sinal dos franciscanos. Gente totalmente desconhecida para os habitantes da terra os padres haviam sido levados á presença do soberano local no interior do Reino e de lá não puderam se afastar, segundo disseram mais tarde, por causa da enorme curiosidade dos nativos pelo que eles contaram acerca dos estranhos hábitos dos brancos, além da curiosidade que eles mesmos tiveram acerca dos hábitos dos nativos (O que é uma atitude bastante normal).

 

Deduzindo talvez (os textos são ambíguos quanto a isto) que os padres poderiam ter sido capturados ou mortos, Diogo decide levar como reféns em seu retorno para Portugal, um grupo de naturais da terra que, também por mera

 curiosidade, haviam entrado no navio. Os documentos afirmam que entre estes curiosos visitantes do navio, naturalmente uma expedição com o intuito de investigar quem eram aqueles homens ‘albinos’, estava Kassuta, o filho do atual soberano local, Nzinga Nkuvu.

 

Levados á Lisboa, direto para a presença do rei e, por conta do longo tempo da viagem, já falando alguma coisa de português, Kassuta, filho de Nzinga Nkuvu e seu séquito ficam em Portugal por cerca de dois anos, segundo os relatos portugueses sendo muito bem tratados na Corte de Lisboa. Vestidos á moda local e convertidos ao cristianismo, estes embaixadores involuntários teriam sido encorajados á servirem de intérpretes dos portugueses que os devolvem ao Kongo em 1487.

 

 

Desta vez Digo Cão é realmente levado á Mbanza Kongo (‘Mbanza’ significa ‘capital’ na língua local) do que passou a ser conhecido como o Reino do Kongo. Recebido com uma grande festa, os portugueses reencontram sãos e salvos os quatro padres franciscanos. O rei do Kongo reencontra com muita alegria os seus compatriotas e seu filho que, embora vestidos como palhacos, depois de encantados com a influencia dos costumes de Portugal, parecem estar muito bem.

 

Inicia-se assim, com pompa e circunstância, o que o historiador inglês Basil Davidson chamou de os ‘anos de provação‘ para o sudoeste da África. Em 19 de Dezembro 1490, o sucessor de Diogo Cão, Gonçalo de Sousa, sai de Lisboa para mais uma viagem à costa africana, mas morre a meio caminho sendo o comando entregue a Rui de Sousa.

 

A história africana desta época, no que diz respeito aos Africanos-brasileiros, começa portanto em 1482 com o Nzinga a Nkuvu (pai de Kassuta), reinando sobre a vasta região denominada Kongo no tempo em que o primeiro navegador português Diogo Cão, chegou ao Matadi. A era de Nzinga Nkuvu, batizado de D. João da Silva (D. João ‘Da Selva’), em homenagem a D.João II, rei de Portugal (o D.João ‘da Cidade’), como não poderia deixar de ser, foi marcada por muitos conflitos e divergências ligados a sua sucessão, demasiadamente influenciada pelo seu interesse pelas coisas de Portugal, fortemente defendidos por seu filho Kassuta.

 

É provavelmente este príncipe Kassuta que, voltando para o Kongo educado sob os moldes cristãos, maravilhado com a cultura portuguesa aprendida em Lisboa durante a interesseira hospitalidade do rei D. João II, quem mais tarde coroado como o rei Nzinga a Mbemba (D.Afonso I), transfere a capital (Mbanza) e inicia o sangrento processo de certa sujeição do Kongo aos interesses de Portugal. No ano de 1512 D.Afonso I, escreve ao Papa Júlio II, submetendo-se ao cristianismo e apresentando seu filho D. Henrique como seu representante.

 

As divergências internas suscitadas pela total submissão da nobreza do Kongo aos interesses de Portugal, acabou provocando um cisma de grandes proporções entre os reinos vassalos (comandados por membros da mesma família ou clã) e a população em geral. Duas correntes principais se formaram. A primeira, que era integrada por aqueles que   aceitavam a influência estrangeira, queria modificar tudo no Kongo, suas instituições, sua religião, etc. e era comandada por Nzinga a Mbemba (o mais velho, segundo na linha de sucessão). A outra corrente, liderada por Nzinga A Mpanzu (o mais novo, primeiro na linha de sucessão) se esforçava então para combater tudo que fosse estranho aos costumes tradicionais da terra.

 

Nzinga a Mpanzu que é o herdeiro legítimo á sucessão do pai, assume o seu lugar mas é logo deposto pelo irmão Kassuta, com a ajuda de padres  jesuítas, agentes de Portugal. Nzinga Mpanzu acaba sendo expulso da mbanza (sede) Kongo, tendo que se refugiar no reino vizinho, terras do Muene NsundiNzinga a Mbemba (Kassuta), já cristianizado, recebe então o nome de D.Afonso I e assume o trono ali por volta de 1506.

 

Nzinga a Mbemba não era simplesmente um rei subserviente, ele era na verdade um tipo ingênuo de visionário, que se julgando grande amigo de D.Manoel I, rei de Portugal – com quem trocava ampla correspondência, sob o tratamento mútuo de“Irmãos Reais” - imaginava poder obter certas vantagens comerciais e tecnológicas dos brancos.

 

Suas decisões devem ser compreendidas, portanto no âmbito de uma conjuntura política na qual alguns reinos que deviam vassalagem ao Kongo, conspiravam intensamente contra a liderança dele, Nzinga Mbemba, que acabou vendo na aliança com Portugal sua melhor garantia para manter e perpetuar seu poder. É neste contexto que Mbemba‘rei do Kongo’ chega a declarar numa carta á D.Manuel o seu desejo de obter a tecnologia para a construção de caravelas, com o fim óbvio de expandir suas fronteiras comerciais e se impor diante de reinos rebeldes e impérios vizinhos.

É assim que, mesmo tendo que enfrentar o agravamento dos conflitos daqueles que, além de questionar sua liderança, não aceitam de modo algum á sujeição da região ao estrangeiro, Nzinga Nkuvu aposta na sua trágica ligação com Portugal.

 

Diogo Cão volta ao Matadi outras vezes. Numa delas, em 1491, consegue penetrar nas terras do Reino do Nsoyo, vassalo do Kongo, onde convence o Mwene Nsoyo (título do governante local) das vantagens dele se converter também ao cristianismo para gozar da amizade e da gratidão de Portugal. Diogo Cão traz consigo desta vez muitos agentes de sua cruzada de dominação cultural, entre os quais alguns padres e aliados nativos (cristianizados durante o processo de cooptação da família real do Kongo), além de paramentos católicos em profusão. O Mwene N'soyo e toda a sua família são então batizados. O Mwene Nsoyo recebe o nome de D. Manuel, cabendo a seu filho o nome deD. Antônio.

 

 

O Rei do Ndongo é Ngola Mbandi, também filho de Ngola Kiluanji. Inicia-se assim, com a associação entre os irmãos Mpanzu a Lukenyi do Kongo e Ngola Mbandi do poderoso reino do Ndongo, uma nova era de resistência ao invasor português. No entanto Ngola Mbandi, segundo algumas versões após ter sido vitima de problemas mentais, morre assassinado. A maioria dos relatos atribuem seu assassinato à sua irmã Nzinga Mbandi, filha de mãe Jaga (etnia também conhecida como Mbangala) com pai Mbundo (Kiluanji)Jinga é soba em Matamba, reino ao lado do Ndongo, que ela, após a morte do irmão, naturalmente anexa ao seu.

 

Acerca do shakespereano episódio que culmina com a morte de Ngola Mbandi, uma versão diferente da acima citada é defendida por Manuel Pedro Pacavira (escritor angolano e um dos biógrafos de Nzinga Mbandi), que sugere que o envenenamento teria sido instigado por uma concubina de Ngola Mbandi chamada Nda Kanini Kya Kiluanji, oriunda de Mpamba, apoiada pelos portugueses (que teriam sido os verdadeiros mentores do complô) com o objetivo de por como soberano dos Kimbundos um Ngola mais obediente aos interesses de Portugal. Auto proclamado Mwenengola, o filho de Nda Kanini foi logo deposto por uma rebelião popular que aclamou e entronizou uma mulher, sua irmã: Nzinga Mbandi.

 

Na verdade, ao que se sabe, o protocolo que regia a sucessão entre os povos da região – baseado em princípios matrilinerares – era muito rígido. No caso, o filho da filha mais velha do rei Nzinga Mbandi (Nzinga) teria que ser o sucessor natural. Morto este, por causas atribuídas ao irmão de Nzinga, interessado em ser ele o sucessor, seria este o incidente cujo trágico desfecho, obrigou a ascensão da impressionante mulher que foi Nzinga Mbandi.

 

Nzinga, contudo já havia aparecido na história um pouco antes como a carismática embaixatriz do reino do Ndongo que, a serviço do irmão Ngola (o mesmo a quem teria supostamente assassinado) vai a Luanda conferenciar com o governador português João Correia de Souza. Como era hábito na ocasião (e as circunstancias deste hábito são motivo de muita controvérsia) adota a fé católica e é batizada como Ana de Souza.

 

Um acordo de paz é firmado com os portugueses, mas não deve ter sido lá muito vantajoso para os do Reino do Ndongo, porque foi rompido assim que Nzinga tomou o lugar do irmão morto. É assim, como soberana geral dos Kimbundos que Nzinga Mbandi comandará a luta contra o invasor português até ser provisoriamente derrotada em 1629.

 

Isolada no interior de Matamba, Nzinga só reaparece em 1641, estrategicamente aliada aos holandeses, que haviam invadido as terras de lá como invadiram as daqui. Nos episódios que ficaram conhecidos como as ‘Guerras d’Angola’ muitos reinos da região se aliaram á Nzinga, entre eles se destacaram, segundo os relatos disponíveis,Cassange, Cafuxe, Quijilo, Sambangombe, Calumbo, Molundo, Acamahoto e depoisQuissama, além do próprio Kongo.

 

O RAPTO DE NEGROS PARA O BRAZIL

 

Mais ou menos desde 1616, quando Luiz Mendes de Vasconcelos assume, no lugar de João Correia de Souza, o posto de governador geral do ‘Reino d’Angola (assim denominados pelos Colonos portugueses), guerreiros Jagas (Mbangalas) aprisionados nas guerras contra os portugueses, começaram a ser enviados para os canaviais de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Sabe-se que foram quarenta os precursores do quilombo de Palmares.

 

As pessoas deste grupo precursor que se embrenhou na Serra da Barriga no início do século 17, em algum momento anterior a 1630, muito provavelmente vieram de Angola, numa destas levas de prisioneiros de guerra. O certo é que durante todo o longo hiato entre 1629, quando Nzinga se recolhe inativa às montanhas de Matamba em 1641, quando ela retoma decisivamente à guerra, aliada aos holandeses, prisioneiros de guerra jagas e kimbundo continuaram a ser mandados em massa para o Brasil pelos portugueses.

 

Na verdade todo este período das guerras anticolonialistas em Angola (1630/45) foi marcado, predominantemente, pelo translado para o Brasil de prisioneiros de guerra. Estando toda região em torno de Luanda (além do interior do Kongo) conflagrada pela guerra contra Portugal, empreendida, ao mesmo tempo, por sobas do Kongo e doNdongo-Matamba (além de soba dos aliados) e engrossada, a partir de 1641, pela presença de tropas holandesas, era evidente (não fosse facto histórico comprovado) que o fluxo tradicional de escravos, antes preados ou vendidos por sobas locais, estivesse totalmente interrompido.

 

Desta feita, os escravos trazidos para Pernambuco passaram a ser, portanto de um tipo muito particular de gente: homens e mulheres adultos,  guerreiros experientes (talvez até mesmo alguns membros da elite ou nobreza dos reinos daquele contexto territorial, de uma mesma área socio-cultural portanto), aprisionados após batalhas e rapidamente recambiados para cá, separados como joio do trigo, segundo as duras leis previstas pela coroa portuguesa para o caso.

 

Uma espécie de elite, portanto. Com forte espírito de grupo. Este status de degredados,‘prisioneiros de guerra’, obviamente muda totalmente a maneira de se encarar a organização social, militar e política o Quilombo de Palmares.

 

Unidos pelo patriotismo e valores culturais e históricos rigidamente estabelecidos; organizados, disciplinados e motivados pelas lutas nas quais estiveram envolvidos em Angola, consideremos, pois que foram estes escravos, que formaram a população que, por meio das fugas em massa passou a habitar a Serra da Barriga.

 

Consideremos do mesmo modo que, iniciando-se estas fugas já antes de 1630, estas pessoas tiveram muitas dezenas de anos para se estabelecer na região, criando modos bem articulados de vida, com amplas possibilidades de recriar inclusive, os elementos fundamentais de sua cultura original africana.

Entre 1641/42 o Mwenekongo Kimpaku (ou Nkanga-a-Lukeni, segundo alguns relatos) tratado de D. Garcia Afonso II (irmão de Nzinga, pertencente portanto a mesma família real do Reino de Ndongo) reúne tropas com vários sobas vizinhos, entre os quais Nambua-Kalombe (que é preso é tem a cabeça cortada) para atacar os portugueses. Em 1646 Kimpaku reafirma a aliança natural com a irmã Nzinga Mbandi. Da aliança participa também o soba do reino de Nsoyo, segundo alguns relatos, tio dos dois e portanto, irmão (ou cunhado) de Ngola Kiluanji.

 

As relações de parentesco entre estas figuras não são, absolutamente fortuitas. As regras protocolares de sucessão, descritas acima como sendo muito rígidas, determinavam papéis bem determinados para a filha do rei (rainha mãe, na prática, pois o próximo rei deveria ser, obrigatoriamente seu filho e para o irmão do rei cujo filho seria o sucessor na ausência do outro sobrinho do rei.

 

Estas regras, segundo indícios em documentos antigos, que remontam a fundação dos dois reinos principais da região (Kongo e os Ngolas) foram criadas no passado bem remoto, por volta do século 12 ou 13, quando da unificação de povos que desceram do Camarões com os povos que já habitavam a área.

O que sugerimos, já de forma enfática é que com muita probabilidade, não haveria porque estas regras não serem repetidas no Brasil pelos líderes palmarinos, havendo inclusive fortes indícios de que eles pudessem ser, mais do que meros escravos aleatoriamente rebelados, criadores de formas de organização originais ditadas pelas circunstancias, ao contrário, um grupo cultural e socialmente articulado desde sua origem na África, quem sabe até mesmo (ainda que remotamente) de algum modo parentes entre si e das pessoas que compunham a casta dirigente nos Reinos do Kongo e dos Ngolas.

 

Os ainda mal contados incidentes ligados a cisão entre os chamados ‘Zumbi’ (o jovem) e ‘Ganga Zumba’ (o velho) envolvendo o irmão deste conhecido como Ganga Zona (tio dos filhos de Ganga Zumba, portanto), sugerem um conflito de sucessão fortemente assemelhado ao que ocorreu com Jinga (mãe do sucessor natural) e seu irmão Ngola Ndambi (o usurpador), inclusive com o incidente do envenenamento, como vimos e a rigor uma prática bastante recorrente na história política dos reinos do Kongo e de Angola.

 

Instigante demais esta história não é não? Podemos depois de conhecê-la afirmar inclusive que, ao que tudo indica, será virtualmente impossível entender a cultura e a história do negro do Brasil sem mergulhar na história dos reinos do Kongo e dos outros Reinos de Angola dos séculos 15, 16 e 17.

 

 

 

                                                  Fonte: http://spiritosanto.wordpress.com