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Por JOUSA JAMBA

 

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Na semana passada, houve uma notícia que foi manchete em vários órgãos de comunicação internacionais - a expulsão, pelo governo ganense, de centenas de chineses que estavam envolvidos no garimpo de ouro.  Até o «New York Times» fez uma reportagem em  que falava-se de como muitos chineses que sonhavam fazer fortunas  com o ouro do Gana tinham que regressar para a sua terra-mãe sem nada.

Em certas reportagens, sentia-se certa atitude contra as autoridades ganenses, especialmente as policiais, que são descritos como corruptas e ineficientes. O mundo talvez esteja muito interessado no relacionamento entre os chineses
e africanos, porque quer se saber quanto tempo é que a lua de mel entre a China e a África vai durar.

Felizmente, há muitos africanos que estão conscientes de que este relacionamento vai ter que ser na base do respeito dos interesses mútuos.  Como vários africanos vão afirmando, a China não está no continente por uma questão de benevolência.  Os chineses precisam de recursos naturais que se encontram em abundancia no continente africano.  E os qfricanos precisam do «know-how» e tecnologia chineses, assim como o seu capital.   Há sempre o risco da dinâmica dos acontecimentos favorecer uma parte da equação - neste caso, a parte chinesa.  Os africanos vão ter que ser capazes de defender os seus interesses.


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O Gana é um país cada vez mais democrático, onde os cidadãos comuns têm, cada vez mais, uma voz de peso na gestão das suas vidas. 

Na BBC, ouvi camponeses ganenses na área em questão que disseram que temiam pelo meio-ambiente da sua região. É que, segundo eles, , a exploração ilegal do ouro estava a resultar numa degradação do solo e das florestas; aqui não era só a existência de buracos por todo o lado, mas também a poluição da água pelos químicos que os garimpeiros usavam para extrair o ouro.  Os ganenses estavam quase desesperados; o que estava em questão era a sua própria sobrevivência.

 

Conheço certos casos de países africanos, como a Tanzânia, onde a disputa sobre as terras e exploração de ouro resultou na utilização pelas autoridades de mão de ferro para conter os camponeses.

 

Ainda na Tanzânia, já vi camponeses africanos a serem agredidos por guardas nepaleses. Eles queixavam-se das empresas que estavam a explorar o ouro, mas estas diziam que lá estavam com a «bênção» do governo central – o que é que contava mais.  Neste caso do Gana, felizmente, o governo central parece estar do lado dos camponeses.   

Usualmente, em casos destes, prefiro sempre imaginar a situação ao contrario. Há alguns anos atrás, a revista «The New Yorker» fez uma reportagem sobre pequenos empresários nigerianos na China. As autoridades chinesas, naturalmente, queriam que o influxo nigeriano no país fosse limitado, por uma questão de manutenção da paz social, contenção do c rime e por aí. Li, recentemente, uma reportagem sobre empresários africanos que se instalaram

na Índia. Estes sofrem com o racismo mais primitivo que se podena Índia. Estes sofrem com o racismo mais primitivo que se pode imaginar: abusos verbais e físicos, numa constante marginalização.  


Mas, o mundo não se inquieta assim tanto com a sorte destes africanos. Suspeito que muitos defenderão que eles devem ser mesmo deportados para o continente donde saíram e ponto final.

No Iraque, Síria, Líbano e mesmo em Israel, há imigrantes africanos que são forçados á regressar às suas áreas de origem, por causa do racismo.  Há esta noção, bastante errada, de que o africano tem muito pouco a dar ao resto do mundo.

Fala-se de um mundo globalizado, no qual as pessoas podem ir à procura de fortunas seja lá onde for.  Temos, então, o investidor que vai aplicando o seu capital por todo lado. Os chineses no Gana chegaram depois de toda a pompa que seguiu ao investimento chinês no sector da eletricidade, fornecimento de água, estradas, etc.. Kwame Nkrumah, primeiro Presidente do Gana e grande panafricanista, sonhava ter um país industrializado. Desta vez, parecia que os chineses haveriam de ajudar na realização deste sonho. Só que o investimento chinês trazia consigo mão de obra própria; ate os carrinhos de mão eram operados por chineses.

E estes chineses foram, naturalmente, identificando outras oportunidades – incluindo o garimpo de ouro.Segundo a lei do Gana, só os nativos é que podem explorar o ouro em pequena escala – mas eles podem interagir com estrangeiros
que invistam nas operações. De repente, passou haver muitos chineses a explorar o preciso metal, usando ganenses como testas de ferro. Muitos nativos não viam isto com  bons olhos, tendo havido atritos que obriaaram os chineses
a armarem-se. De repente, havia chineses armados até aos dentes – as armas vinham principalmente da polícia – a vigiarem o que eles viam como suas minas de ouro.

Uma da autoridade ganense disse que se tinha atingido o ponto a partir do qual se passara a tratar a coisa como uma questão de segurança.  Agora imaginem milhares de trabalhadores ganenses armados numa região da China!

 

Quando, no século dezoito, certos exploradores europeus viajavam pelo o interior de África, a sua riqueza natural implantava neles sonhos de imensas fortunas.

Os africanos, claro, serviriam de um elenco lá no fundo para a realização destes sonhos. O Rei belga tratou o Congo e os seus nativos como se fosse propriedade sua: os africanos que não atingissem as quotas de produção eram punidos
severamente.  Mas isto tudo era justificado na base de que o soberano, numa missão civilizadora, estava a espalhar o cristianismo e o saber. Os estereótipos dos africanos de então ainda existem hoje: são tidos como preguiçosos
e não inspiradores de confiança. 

Dizia-se que o preto só ia mesmo à chicotada. Há alguns meses atrás, falando sobre as tensões nas minas  entre gerentes chineses e trabalhadores zambianos, ouvi um chinês a dizer que havia uma questão de cultura: os chineses
e zambianos, segundo ele, não partilhavam a mesma cultura de trabalho. Claro que os zambianos tinham, neste contexto, que se adaptar à cultura dos chineses, os santos investidores.

Voltemos, porém, ao Gana. Os ganenses são pequenos-grandes comerciantes; eles singram em toda parte do mundo. Suspeito que mesmo o capital que fez com que certos chineses surgissem para a exploração de ouro existe
no país. O que deve faltar é uma cultura de transparência.  Há ganenses com licenças de exploração de ouro, mas que não estão minimamente interessados em saber sobre os pormenores dos processos – como o seu efeito no meio ambiente. Para certos possuidores destas licenças, o que contava mais eram as ligações com as autoridades políticas no governo central. O processo da concessão de licenças para a exploração de minerais está a agora a ser revisto no Gana. Fala-se actualmente de exploração que envolve a comunidade, em que as coisas são feitas propriamente.  Os chineses podem lá ir, mas terão que ser enquadrados num sistema do qual todos ficam a ganhar.  Mesmo tarde, os africanos comuns estão a despertar!  

 

 

 

                                                                                                    Via Semanário Angolense

 

 

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