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Bakongo no bairro Palanca-Luanda.

Por Luena Nascimento Nunes Pereira(*)

A cidade de Luanda começou com a construção no Forte de São Miguel, à entrada da Ilha de Luanda e se estendeu para o atual Bairro dos Coqueiros, que liga a cidade alta à baixa. Poucos habitantes havia nesta área em fins do século XVI (a cidade foi fundada em 1576), quando os portugueses aportaram na baía de Luanda. A maior parte dos habitantes vivia bem distante da baía e próximos aos leitos dos rios Kwanza, ao sul, e Bengo, ao norte, que marcam os limites da Luanda atual.

No entanto, havia um povoamento importante na Ilha de Luanda. Ali era feita a recolha dos nzimbus, os pequenos cauris (tipos de conchas) utilizados como moeda corrente no Reino do Kongo. Como posto avançado deste reino, controlado pelos chefes subordinados ao Rei (o Mani Luanda), havia uma pequena comunidade destes catadores de cauris além de pescadores e agricultores. Constituíram na primeira população se não de origem Kongo, mas ligada ao Reino do Kongo em Luanda62. O Rei do Kongo perdeu sua soberania sobre a Ilha após a derrota em Ambuíla, em 1665, para os portugueses.

A débil colonização portuguesa e a decadência da região do norte de Angola foram fatores que explicam a má integração desta região com a sede da colônia, mesmo considerando serem áreas tão próximas. O relevo acidentado e a densa floresta que faz a transição entre as áreas de fala kimbundo e kikongo me parecem fatores de relativa importância. O fato é que as rotas do norte do país para Luanda se fizeram principalmente ao longo do litoral, ligando os portos de Cabinda, Soyo (na foz do Rio Congo), Nzeto e Ambriz a Luanda, vindo, portanto, destas regiões costeiras, o contingente de pessoas do norte encontradas desde muito tempo na cidade de Luanda.

Poucas informações temos sobre outras etnias além das de fala kimbundo vivendo em Luanda no período anterior a década de 1950. Porém, Ladeiro Monteiro (1973) nos dá dados sobre a origem étnica dos moradores dos musseques, na década de 1960 e 70. Os Bakongo, a maioria vindas do distrito do Zaire, principalmente de Ambrizete, formavam 6% desta população. Eles se encontravam nos musseques do Mota, Lixeira, Zangado e Rangel, na parte norte da cidade (Monteiro, 1973: 97). O dinamismo destas populações chega aos nossos dias através da história de suas associações, principalmente as desportivas. O famoso musseque do Sambizanga abrigava o que se chamava de “Pequeno Congo”, provavelmente também de oriundos da província do Zaire.

Se por mar se chegava facilmente a Luanda, as populações do interior da região de fala kikongo, mais numerosas, eram atraídas mais freqüentemente para o vizinho Congo Belga. A facilidade da identificação étnica e lingüística era fator importante, mas as péssimas estradas que ligavam o norte de Angola a Luanda também desencorajavam a migração nesta direção. Muitas vezes, a ligação entre as localidades do norte de Angola se fazia mais facilmente passando pela colônia vizinha (Conceição Neto, 1996: 51). Melhores estradas ligavam o porto fluvial de Matadi, no Congo, e Noqui, na fronteira entre Angola e o Congo, a São Salvador. No norte do distrito do Uíge, Maquela do Zombo distava de apenas 60 km da fronteira com o Congo e 255 km até a capital, na época, Leopoldville. Para Luanda, a travessia era de mais de 600 km(63).

A primeira leva expressiva de angolanos desta região do norte (Uíge e região de São Salvador) para Luanda se deu com a expulsão, do Congo Belga, do líder religioso Simão Toco e seus adeptos, na década de 1950. As dezenas de fiéis tocoístas detidos e deportados foram espalhadas por diversas províncias de Angola, mas muitos ficaram em Luanda, criando o bairro dos Congolenses, na Terra Nova.

Depois, com a independência e a inauguração de um novo padrão de ocupação na cidade, com a vinda de gente de todas as partes do país, assistimos o retorno dos ex-exilados do Congo/Zaire que formaram uma das comunidades mais expressivas e visíveis em Luanda.

Os chamados regressados vieram chegando em diferentes levas. Primeiro, aqueles chegados na altura da independência, formaram um pequeno grupo de algumas centenas. Estes ocuparam os diversos cargos vagos na administração do Estado e dispuseram das residências do centro da cidade com a saída dos portugueses, acompanhando parte da população que estava na capital.

O segundo grupo, nos anos 1980 e 90, constituiu o contingente que adquiriu maior visibilidade, tanto pelo seu maior número, de vários milhares, como pela iniciativa da montagem do mercado paralelo e ilegal e pelos confrontos decorrentes do impacto destas transformações (Pereira, 1999). Estes construíram e ocuparam os que hoje identificamos como bairros de grande população regressada como Palanca, Petroangol, Mabor, Hoji A Henda e Rocha Pinto64.

As recentes levas de população das províncias somam-se aos que ainda chegam do Congo/Zaire, de filhos e netos de angolanos. Estes engordam os bairros de regressados já citados e avançam ainda para outros bairros, como o Golfe e Sapu.

Percebe-se, de acordo com as levas de imigrados, algumas diferenças de ordem regional nas ocupações dos bairros. Vemos assim que, no Palanca, habitam majoritariamente os originários da província do Uíge e que no Petroangol residem mais pessoas da província do Zaire, da região de Mbanza Congo (antiga São Salvador). As populações vindas do litoral – Soyo, Nzeto, etc. – ainda dão preferência ao Sambizanga e até mesmo o bairro da Samba, ambos próximos ao litoral de Luanda.

Chegando ao Palanca

O Bairro do Palanca, estimado em 70 mil habitantes em 1998 (DW, s/dA) era um bairro semirural nos últimos anos do tempo colonial. Foi efetivamente ocupado com a chegada dos ex-exilados do Congo a Luanda, principalmente a partir dos anos 1980. Vizinho ao Bairro Popular, foi iniciado deste lado, se expandindo ao longo da Estrada de Catete, fazendo seu limite com a Estrada do Sanatório, assim conhecida pelo hospital ali mantido pela igreja católica. Embora limitado e bem identificado por estes três marcos (Bairro Popular a noroeste, Estradas do Catete a nordeste e Sanatório a sudeste), a última fronteira do Palanca, a sudoeste, se encontra um tanto quanto confusa nos limites dos Bairros Golfe, Chapa e Sapu.

Ladeando o bairro do Palanca pela estrada do Sanatório é visível a diferença deste bairro dos antigos musseques pela absoluta maioria de casas construídas com blocos de cimento. Considerando a posterior popularização deste material para a construção das casas em outros bairros da periferia, podese dizer que o Palanca ainda se distingue pelas suas casas com imensos quintais, a maioria deles não murados ou com muros baixos, diferente do que se vê em outros bairros, mesmo de predominância bakongo, como a Mabor. Os inúmeros pontos de comércio e as pequenas lojas, principalmente de conserto de carros, chamam a atenção ao longo da estrada movimentada.

Entrando nesta nova estrada, que liga a estrada do Sanatório ao bairro Popular, encontramos os principais marcos do Palanca além dos pontos comerciais: as diversas igrejas. Bem na entrada da estrada, à direita, fica a Igreja do Exército da Salvação. Mais adiante, do mesmo lado, a Assembléia de Deus Pentecostal. Mais a frente, o templo da Igreja Bom Deus ocupa todo um quarteirão à esquerda. Por dentro do bairro, as diferentes igrejas são usadas como ponto de referência para a localização de residências, ainda que o Bairro conte com a maior parte das ruas numeradas, apesar das inúmeras travessas.

Os limites do bairro do Palanca indicam também as levas de ocupação do bairro e a sua heterogeneidade étnica, ainda que pese a imensa maioria bakongo em seu seio.

Na área próxima ao Bairro Popular encontramos uma população um pouco mais diversificada, com presença de pessoas de origem Ambundo, sobretudo da região de Catete. O centro do bairro é marcadamente de população regressada, chegada nos anos 1980 e depois. À medida que o Palanca se estende em direção à Estada do Sanatório vamos encontrando famílias chegadas mais recentemente, nos anos 1990, inclusive muitos zairenses, segundo os próprios moradores do bairro. O “sul” do bairro, na parte oposta a estrada do Catete, é mais empobrecido e a população é ainda mais recente e inclui gente vinda do centro-sul de Angola (Ovimbundu).

Além das diversas lojas e igrejas, há um grande número de organizações não governamentais com sede no bairro. A maioria das ONGs lá existentes é formada por regressados e trabalham em parceria com organizações estrangeiras ou é ligada a alguma igreja. Elas participam em projetos de capacitação comunitária, construção de pontos de água, construção e manutenção de escolas privadas e cooperadas, cooperativas de mulheres comerciantes, formação de agentes de saúde, sobretudo no combate à malária.
Apesar de diferente dos tradicionais musseques pela forma de construção e arruamento, todos os bairros da periferia sofrem as mesmas carências de luz mal distribuída e água não canalizada. O excesso de ligações clandestinas torna mais instável o já precário fornecimento de luz e a água tem que ser obtida junto a chafarizes construídos seja pelo governo, seja por organizações não governamentais. Muitas vezes a água é obtida junto a particulares que constroem grandes tanques de água nos seus quintais e a vendem a preços muito altos para o poder aquisitivo da maioria da população dos bairros. A manutenção dos chafarizes públicos depende da organização comunitária, quando são instalados pelas ONGs, ou sofre a imprevidência habitual do governo. As filas de água consomem boa parte do tempo das mulheres nos afazeres domésticos e parte significativa do rendimento familiar, pois mesmo os chafarizes públicos são pagos, embora a preços bem baixos. O problema é que muitas vezes falta água nestes pontos, tendose muitas vezes que recorrer ao abastecimento com particulares.

Outro drama recorrente é o da recolha de lixo, muito irregular, para não dizer quase ausente. O lixo vai sendo amontoado em terrenos baldios fazendo grandes montes que por vezes são queimados, outras vezes enterrados. Há outros bairros em que a situação da recolha de lixo é ainda pior. O sistema precário de saneamento e de recolha de lixo faz de Luanda um lugar onde a malária é endêmica, piorada com as chuvas irregulares, porém intensas, que caem de fevereiro a abril. Algumas das várias ONGs presentes no bairro do Palanca fazem da campanha de malária um importante programa, com venda de mosquiteiros a preços simbólicos e formação de agentes sanitários que, todavia, pouco minoram o problema.

Chegando ao bairro do Palanca num dia comum de semana percebemos que grande parte dos moradores exerce suas atividades econômicas dentro do bairro, a maior parte em serviços, sobretudo comércio, apesar de uma parte significativa, sobretudo masculina, se deslocar ao centro da cidade, retornando à noite65. Os inúmeros estabelecimentos de comércio e serviços como alfaiataria, conserto de carros, cabeleireiros, etc., fazem do bairro uma comunidade muito dinâmica dentro do modesto nível econômico em que vive, evidenciando uma grande capacidade de organização e empreendimento.
Além dos pontos de referência das igrejas e a vivacidade do bairro durante todo o dia, os mercados constituem em outro marco fundamental de qualquer bairro periférico e o Palanca não é exceção. Os mercados, ou “praças” são os principais pontos de aglomeração do bairro, principalmente a partir do meio da tarde. É onde se exerce a principal atividade econômica das mulheres, garantindo a subsistência do dia-a-dia da família.

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(62) – A respeito da controvérsia quanto a origem dos habitantes da Ilha de Luanda, ver Carvalho, 1989: cap II.

(63) – Além das más estradas até Luanda, o Congo Belga atraía as populações do norte de Angola, por sua economia mais dinâmica, que geravam melhores oportunidades de trabalho. Uma vez estabelecido o fluxo migratório, as pessoas podiam contar com o suporte de familiares já imigrados. O fator étnico neste caso também foi determinante para a freqüência das migrações.

(64) – O bairro do Rocha Pinto, formado ainda no tempo colonial, fica bem próximo do aeroporto, naquela que era a fronteira sul de Luanda. Podemos associar a ocupação regressada na área do aeroporto com as atividades de comércio e contrabando. Prova disso é a ocupação, nos bairros também próximos do aeroporto, como Mártires do Kifangondo e Cassenda, não só por regressados, mas também por grupos de estrangeiros dedicados a estas atividades, como zairenses, malianos, nigerianos, etc.

(65) – Na “baixa” as atividades exercidas pela população residente nos bairros são muito variadas, tanto nas funções privadas como públicas, mas geralmente estão, como a maior parte da população de Luanda, ligadas ao setor informal.

(*)Luena Nascimento Nunes Pereira é Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Extrato da tese: “Os Bakongo de Angola: religião, política e parentesco num bairro de Luanda”