Publié par fara

Ainda o dilema da moeda. Dólares a conta-gotas

O preço do dólar continua elevado apesar de uma ligeira descida nos últimos dias no mercado informal.

O Banco Central minimiza os efeitos desta situação, chegando mesmo a passar uma mensagem de tranquilidade, garantindo que a situação irá inverter-se. Optimismo não partilhado pela banca comercial e pelas casas de câmbio.

Verdade ou não, embora se assista nos últimos tempos a uma relativa descida do preço do dólar no mercado informal, a tendência altista da moeda norte-americana mantém-se, provocando danos profundos à economia, às famílias e até à própria sociedade, algo que contrasta com os sucessivos anúncios semanais de vendas de divisas pelo BNA.

Agravada pela crise derivada da queda do preço do petróleo no mercado internacional, as consequências desse quadro acentuam-se no dia-a-dia dos cidadãos, com reflexos para o seu cada vez mais baixo poder de compra, aliadas à precariedade do valor dos salários, que vai tendo dificuldades de suportar a cesta básica.

A medida do Banco Central de restringir a circulação de divisas no mercado, com a proibição das empresas petrolíferas de procederem a pagamentos, quer aos assalariados, como os demais serviços prestados em dólares, foi aplaudida apenas por uma franja de analistas económicos. Sem ter em linha de conta o papel exercido pelas divisas no processo de importação de bens e serviços de que o País tanto carece, de lá para cá a moeda nacional mostrou-se incapaz de suprir a lacuna deixada pela não circulação do dólar no mercado interno, de tal forma que as repercussões se reflectiram no exterior quando até os fornecedores de bens e serviços passaram a não dar crédito às compras dos importadores angolanos, por falta de divisas.

Se em 2014 o câmbio do dólar no mercado oficial não passava dos 93 kwanzas por cada dólar, já no começo de 2015, o preço da moeda externa disparava, situando-se nos dias de hoje acima dos 134 kwanzas por dólar, no oficial e no mercado informal acima dos 200 kwanzas.

A desvalorização actual do mercado cambial, por comparação ao ano passado, segundo profissionais do sector, está a acima dos 40 porcento, e tem condicionado de forma significativa a oferta de divisas junto da banca comercial que não consegue satisfazer as necessidades dos seus clientes.

Esta situação é apontada como a primeira causa para a escassez de dólares que actualmente o País está a viver. E resulta da baixa no preço do petróleo no mercado internacional, que penaliza com gravidade a economia angolana, quase exclusivamente dependente desta matéria- prima. Mas, infelizmente para o sistema financeiro nacional, a procura de divisas pelos clientes não segue a mesma tendência da "desvalorização cambial", fazendo fé nos homens da banca, obrigando os bancos a "jogos de cintura" para satisfazer minimamente as solicitações.

"É quase impossível satisfazermos os pedidos que nos chegam. E por mais que nos esforcemos, enquanto a situação se mantiver, vamos viver esta realidade que não nos agrada; mas não podemos fazer nada", disse-nos um quadro sénior de um dos principais bancos da "praça".

Para "minimizar os estragos", os bancos estão a aplicar alguns condicionalismos na pouca oferta de divisas que vão tendo. Por exemplo, o BFA, para o caso de viagens, cativa logo, no momento da solicitação, o valor em kwanzas correspondente ao montante pretendido em divisas.

"Estamos a fazer isso porque muitos clientes solicitavam as divisas sem terem kwanzas nas contas e só depois de aprovada a operação é que depositavam o dinheiro. Isso fazia com que muitas aprovações ficassem pendentes, prejudicando outros clientes interessados", explicou o gerente de uma das agências do BFA. Mas, engana-se quem pensa que o "congelamento dos kwanzas" é garantia de aprovação imediata.

Alguns casos arrastam-se por meses (dependendo do tempo de solicitação e do período da viagem) e ainda assim a operação não é aprovada. Situação que desagrada os clientes por considerarem injustificável o congelamento do dinheiro.

"O banco cativa o nosso dinheiro por um período indeterminado. Não podemos utiliza-lo enquanto não tivermos uma resposta que pode ser ou negativa ou positiva. Quando é positiva, menos mal, porque conseguimos os dólares, mas quando é negativa devolvem-nos o valor sem quaisquer juros. Não entendo este comportamento do banco. Mas como estamos a precisar, temos de aceitar essa irregularidade", disse um cliente do BFA.

Já ao nível das transferências, o banco garante absoluta normalidade. "Não temos problemas nas transferências", garantiu o presidente executivo da instituição, Emídio Pinheiro, durante o programa Usac Magazine transmitido na rádio LAC. As "adendas" para a compra de divisas estendem-se a outros bancos, com alguns a exigirem a obrigatoriedade de domiciliação dos salários, outros a realização de algumas aplicações. Neste jogo de procura e oferta de divisas, os cidadãos também vão utilizando algumas estratégias.

A mais usual é a aquisição de um bilhete de passagem para apenas comprar divisas, já que esta é a via mais rápida para se conseguir cambiais nesta época de crise. "Realmente eu tenho utilizado esta prática com muita regularidade e dá algum jeito. Sobretudo para aqueles países que não exigem visto, como por exemplo a Namíbia", disse um cliente.

Atento a esta situação os bancos vão aplicando algumas medidas de controlo, como por exemplo a confirmação no passaporte do carimbo de entrada e saída do Serviço de Migração e Estrangeiros.

Drama na aquisição de dólares

Os cidadãos vêm-se a braços com a obtenção de divisas para os mais diversos fins, sobretudo para tratamento médico no estrangeiro, cuja situação deveria merecer uma atenção especial por parte das autoridades. Serafim Sequele, funcionário público, está com um cancro no esófago e está de junta médica.

Não consegue seguir para a Namíbia em tratamento por falta de divisas. Ele disse ter recorrido a vários bancos comerciais e nada ter conseguido. "O que apenas consegui trocar foram 200 dólares numa casa de câmbio no centro de Luanda", conta Serafim, que disse ter percorrido quase todas as instituições bancárias da cidade.

No último banco, que foi o BAI, por não ser cliente da instituição, os funcionários disseram-lhe não ser possível satisfazer o seu pedido. Outro cidadão é I. S. oficial das Forças Armadas que preferiu manter- se anónimo. Ele relatou ao NJ que pretende mandar a filha em tratamento para o exterior, mas não consegue, devido também à falta de dólares no mercado. Já recorreu à banca comercial e quase todos solicitaram que fizesse um requerimento a pedir o montante pretendido.

Passados mais de 20 dias, o seu pedido não foi atendido. "Apenas solicitei que trocassem pelo menos 15 mil dólares, mas depois de toda a documentação reunida, recorri aos bancos comerciais e os pedidos não foram satisfeitos. Não consigo pagar o preço que as kinguilas, (vulgo cambistas de rua) estão a praticar", explica I.S.

Segundo ele, mesmo com o bilhete de passagem já adquirido e o visto no passaporte, as tentativas de obter recursos financeiros que lhe permitam viajar com a filha que padece de uma doença ligada ao coração, resultaram em nada. Há promessas de solução do problema, mas, conforme conta, tudo não passa de meras promessas. Já o também paciente Domingos Alfredo foi ainda menos feliz, contando- nos que por todos as agências em que passou, nem foi possível sequer entregar a documentação, uma vez que a data da sua viagem era muito próxima e o banco apenas atenderia entre 15 a 20 dias depois do pedido ser efectuado.

"Cancelei a viagem, remarcando-a para outra altura, mas mesmo assim ainda continuo à espera que o banco onde fiz o pedido me atenda", referiu Domingos que teve de avisar a clínica que o havia de receber na África do Sul.

Se para estes cidadãos em situação de saúde precária, a compra de divisas para tratamento médico no exterior, não está facilitada, o que ocorre com milhares de outros com outras necessidades mais elementares, como viagens de férias e negócios entre outras?

Zungueiras ganham espaço

O mercado informal apresenta-se como uma alternativa para quem pretende adquirir divisas. Com a questão de sempre: De onde vêm as divisas que aí são vendidas? Se antes era atribuída parte da responsabilidade aos funcionários das empresas petrolíferas, por colocarem divisas nas mãos das "kínguilas", este facto já não se aplica, desde que estes passaram a receber os seus salários em kwanzas de há um tempo a esta parte.

A banca tem sido apontada "em voz baixa" como uma das fontes, embora os profissionais desta área refutem a acusação. "Hoje nenhum funcionário consegue tirar divisas e colocá-las na rua, porque os mecanismos estão tão evoluídos e apertados que é praticamente impossível fazer isso", disse uma fonte que trabalha na banca.

As "kinguilas" também defendem-se e vão dizendo que as divisas são adquiridas nos pontos de venda. As pessoas vêm mesmo aqui. E trocamos. É este dinheiro que nos aguenta aqui todos os dias. Se algumas têm fornecedores próprios, não posso dizer, disse uma cambista com banca na rua Rainha Ginga.

Há dólares à vontade no "Mártires de Kifangondo"

A Rua 14 do bairro Mártires de Kifangondo é dos pontos de Luanda que, no mercado informal, regista maior procura da moeda estrangeira, onde a "preciosa" nota de 100 dólares já esteve mais barata, comparada com outros pontos da capital em que a moeda norte-americana regista uma alta sem precedentes.

No maior ponto de venda de divisas, a rua referida está apinhada de cidadãos oeste-africanos que dominam o sector informal de compra e venda de dólares.

A sua disponibilidade levou-nos a questionar alguns que, sob anonimato, afirmaram que o movimento de aquisição de notas começa dos bancos por intermédio de funcionários seus que, em contacto com "kinguilas" que possuem contas nos referidos bancos conseguem, com recurso a vários comprovativos, levantar um valor mínimo de quinze mil dólares para comercialização.

Questionado ainda sobre as vantagens desse negócio, um dos "operadores informais" disse que a contrapartida pela comissão de venda é que os leva a fazer este negócio, tendo ainda como pressuposto a sobrevalorização da cifra praticada pelos bancos.

Daí que, explica a fonte, "ganham todos", depois do valor em kwanzas voltar a ser depositado. No caso de surgir a necessidade de um cliente em obter uma quantia altíssima, unem-se todos para satisfazer a procura, situação que, explica, tem acontecido diversas vezes e resulta naquele ponto geográfico ter uma procura ainda maior.

Os comerciantes daquela área do distrito urbano da Maianga afirmam que para além do circuito bancário, existe uma relação estreita com alguns importadores que, tendo dólares em mãos, usam-no como meio de negócio. Principalmente numa fase como esta, em que as notas registam uma procura grande, principalmente por parte pessoas que estão de "malas feitas" para o exterior ou de negociantes que não encontram nos bancos a solução para a aquisição de dólares para pagamento de serviços ou produtos no exterior.

"O movimento é grande e, muitas vezes, somos obrigados a fazê-lo discretamente devido às rondas da Polícia Económica" disse Sallif Fatou, antigo comerciante daquele lugar que, no interior da sua loja de cosméticos faz, em paralelo, a compra e venda de notas . O interior de algumas casas que servem, supostamente, como moradias para os estrangeiros que ali residem e trabalham, servem também de ponto de encontro para contabilização de altas somas para determinados clientes.

É dos sítios onde, na fase em que o circuito cambial estava estável, se praticavam os valores mais baixos do mercado, o que justificava a enorme procura por aquelas bandas. Acrescido hoje ao facto de ser dos lugares onde a mesma está sempre disponível, independentemente do preço que é ditado pelo mercado.

O "Mártires" tem servido também como fonte de abastecimento para outras "kinguilas" que comercializam divisas em outros pontos de Luanda. Num período inferior a dois meses, a cotação, que estava cifrada entre quinze e dezasseis mil Kwanzas por cada nota de 100 dólares passou para vinte e oito mil, tendo, nos últimos dias, baixado para os 22 mil kwanzas.

Uma visita diária feita aos pontos de venda, incluindo as cercanias do aeroporto de Luanda, mostrava uma diferença mínima de oitocentos kwanzas. Os pontos de compra e venda dólares localizados na rua 14 do "Mártires de Kifangondo" registam uma maior procura, justificada não só pela fluidez, mas também pela rapidez como que muitas vezes a nota desaparece. Segundo alguns comerciantes, diariamente podem ser transaccionados, por cada um deles, um valor igual ou superior a trinta mil dólares.

Via NJ

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