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Por Domingos dos Santos

Um movimento frenético de camiões “rasga” todos os dias as estradas do país transportando mercadorias diversas para todas as províncias. Em cinco dias, a reportagem do Jornal de Angola acompanhou as peripécias por que passam os camionistas e ouviu histórias do dia-a-dia de quem ganha a vida nas estradas nacionais, numa viagem de Luanda a Ndalatando.


O terminal de passageiros do quilómetro 25 registava uma enorme movimentação de viaturas e pessoas que viajavam para o interior do país. Era mais um dia de trabalho, ao longo da Estrada Nacional 230. Nove horas da manhã e começou a aventura de fazer uma reportagem de viagem a bordo de um camião.


A viagem era longa e, por isso, João Gonçalves, o primeiro camionista com quem seguimos viagem, com mais de três décadas de experiência ao volante, ia fazer algumas paragens para almoçar e reabastecer o camião.


João Gonçalves começou a conduzir camiões aos 24 anos quando ainda era ajudante do seu tio Manuel da Silva, a quem acompanhava nas longas viagens pelo interior do país. “Sempre gostei de camiões”, conta. Partimos quando eram 10h00 em direcção a Catete. Mas antes, uma última verificação ao estado técnico do camião, para garantir uma viagem tranquila. “É preciso prestar a­tenção a todos os detalhes”, disse, ao mesmo tempo que punha o camião a funcionar.


A viagem decorria sem problemas, quando alcançámos Bom Jesus em direcção a Catete, onde fizemos a primeira paragem. A­proveitámos para apreciar a bela paisagem que a natureza nos oferecia numa estrada de dois sentidos, onde turismos de elevada cilindrada e camiões disputavam a supremacia com ultrapassagens perigosas, mesmo com a presença de agentes reguladores de trânsito. “Infelizmente, esta é a realidade das estradas nacionais, onde a vida de todos está sujeita a vários riscos”, ressalta João Gonçalves, para quem é sempre “um prazer viajar pelo país”, embora isso o leve a passar semanas longe da família.

Outras gentes e culturas

“Não sente saudades da família?”, questionámos. João Gonçalves, peremptório, responde que sim, mas que a ideia de viajar e conhecer pessoas novas e lugares diferentes são factores que o atraem nessa profissão. “Família é sempre família. O nosso porto seguro. Mas tenho que trabalhar para sustentá-la e enquanto isso vou conhecendo novos lugares e culturas”, disse, acrescentando que está “muito feliz” por conhecer melhor as estradas do país. “Hoje, as estradas estão boas, mas a condução perigosa continua”, lamenta João Gonçalves, enquanto lembra as precárias condições das estradas anteriormente, quando punham em risco a vida de inúmeros motoristas e passageiros.


João Gonçalves, de 54 anos, sabia do que falava e a quantidade de curvas apertadas e linhas rectas com alguns buracos no asfalto confirmavam os seus receios. “Por isso, todo cuidado é pouco.” Mas esta não é a sua única preocupação. O maior problema reside no facto de o troço entre Luanda e Zenza do Itombe, na Estrada Nacional 230, não ter um separador central entre as duas pistas de rodagem com sentidos opostos, o que aumenta o risco de choques frontais.


A conversa estava boa e por isso não demos pelo tempo passar. Já passavam das 11h30 quando chegámos a Catete, onde fizemos a primeira paragem para o almoço: funge com carne de cabrito. Infelizmente, a partir de Catete tivemos que seguir viagem com outro camionista. Para trás ficou João Gonçalves e o seu camião Volvo, carregado de mercadoria diversa em direcção à província do Huambo.

Saudades do antigamente

A vila de Catete é sempre o primeiro ponto de paragem para descanso de muitos camionistas que aproveitam para almoçar e recuperar forças para uma longa viagem, depois de terem vencido os engarrafamentos da cidade de Luanda. Entre os vários camionistas no local, encontrámos Américo Braga, 59 anos, que desde os 20, ainda no tempo da guerra, percorre o país de lés-a-lés. “Era muito arriscado por causa da guerra, mas gostávamos de percorrer o país”, conta.


O prazer das longas viagens, ao que parece, nunca vai acabar para ele, principalmente agora com a paz que permite viajar sem temer muito pela vida. Ainda assim, para espanto da equipa, “Ti Américo”, como é tratado por António Bernardino “Toni”, seu ajudante há dez anos, tem saudades das viagens do “antigamente”. Segundo ele, antes os camionistas eram considerados “verdadeiros desbravadores”, que com “a sua coragem” e “espírito aventureiro” enfrentaram o perigo para levar alimentação e ­roupa a milhares de pessoas isoladas por causa da guerra. “Tínhamos orgulho em fazer este trabalho e ganhávamos para isso”, afirma Américo Braga, para quem hoje os camionistas “perderam o respeito e a consideração” que tinham da sociedade. “Hoje, ganhamos mal, somos desrespeitados, a sociedade vê-nos como pessoas que não têm mais nada que fazer”, conta, reconhecendo que essa má imagem existe também por culpa de muitos camionistas por conduzirem em excesso de velocidade e desrespeitarem as regras de trânsito.


José Armando, outro camionista, de 61 anos, é da mesma opinião. Conta que as viagens de longo curso “sempre foram um vício” para ele, mas sente-se decepcionado com a actual imagem que se tem dos camionistas. “Antigamente, era um orgulho termos um filho a seguir as nossas pegadas. Hoje não aconselho, nem mesmo o meu filho, a ser camionista”, disse.

Uma juventude na estrada

Uma nova boleia, principalmente, nas estradas nacionais não é nada fácil, numa altura em que correm notícias da morte de camionistas, supostamente assassinados por pessoas a quem deram boleia. Depois de várias negociações com alguns camionistas, conseguimos um que aceitou dar-nos boleia, de Catete até Ndalatando, embora com muitas suspeitas. Por isso, tivemos que nos identificar como jornalistas e dizer que pretendíamos fazer um trabalho sobre os camionistas de longo curso.


“Todo o cuidado é pouco. Ultimamente tem havido muitos assaltos a camionistas, com mortes”, disse David Manuel, de 35 anos, 18 dos quais como camionista. Ele aceitou dar boleia à equipa de reportagem, desde que não revelássemos o nome da empresa em que trabalha, para não perder o emprego. “Praticamente, a minha vida toda foi feita na estrada a bordo de um camião, como ajudante do meu pai, já falecido”, conta David
Manuel que antes de completar 18 anos já acompanhava o pai, Domingos Manuel, nas várias viagens pelo país.


David Manuel roda o país a transportar mercadorias diversas de Luanda para outras províncias. Desta vez o seu destino é Malanje, onde vai deixar materiais de construção civil. David conta histórias e experiências vividas nesta profissão desde os seus 17 anos. “Não pretendo ser outra coisa que não seja camionista”, disse, acrescentando que já não consegue ficar parado muito tempo num único lugar e já não se lembra de quantas cidades conheceu. “O bom em ser camionista é o facto de conhecer novos lugares, culturas e fazer novas amizades”, conta.


David reconhece a má imagem que se tem actualmente dos camionistas, muitas vezes acusados de má condução e estarem envolvidos nos acidentes mais espectaculares de que se tem ideia. Ainda assim, pediu algum “desconto” para os seus colegas da estrada, que chama de “verdadeiros guerreiros do asfalto”, porque trabalham no duro, passam dias e dias fora de casa, dormem em lugares diferentes, muitas vezes a bordo dos seus camiões, que nem sempre oferecem a comodidade de uma cama para uma noite de sono tranquilo.


“Apesar dessas vicissitudes, a vida de camionista tornou-se u­ma aventura marcada pela novidade de conhecer novas pessoas”, referiu.


Os buracos que surgem em alguns pontos das estradas nacionais, o capim que tira a visibilidade ao automobilista nas curvas apertadas não são os únicos ­perigos existentes. Outra situação preocupante é a quantidade de animais soltos na via, onde muitos são mortos depois de atropelados. “É preciso ter atenção, porque estes animais surgem de surpresa”, disse.


Depois de quase dez horas de viagem a bordo de um camião, chegámos ao destino, a cidade de Ndalantado. David continuou a sua viagem para Malanje, onde vai deixar material para reabilitação de estradas.

Via J.A