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FNLA. O fim da ‘picada’ inglório de um partido histórico. Grande Entrevista com Lucas Ngonda.

Por Ramiro Aleixo

Faltando pouco mais de três anos para a realização das eleições legislativas, o que se pode esperar de uma FNLA ainda fragilizada? O desaire na certa, porque, ainda que tudo se arranje, dificilmente o passado dessa organização servirá de alento para a massa de militantes desavinda e descrente

Talvez se encaixe como uma luva no actual momento que a FNLA vive a seguinte frase do falecido líder chinês Mao Tsé-Tung, um velho aliado dos movimentos de libertação do continente africano: “Só progride quem é modesto. O orgulho obriga a dar passos para trás”.

E é verdade. Como um grande navio na recta final do seu tempo de vida útil, a FNLA encalhou na praia, está a ser corroída pela ferrugem e não tarda, será varrida do mapa pela dinâmica política do novo Estado emergido da luta de libertação, em que, embora possa parecer irónico, foi a principal força catalisadora.

De acordo com dados históricos, as origens deste partido remontam a 7 de Julho de 1954, quando um grupo de nacionalistas (com a actuação do cónego Manuel das Neves na sombra) formaram a União das Populações do Norte de Angola (UPNA), que, em 1958, deu lugar à UPA (União dos Populações de Angola), expressão do objectivo funda-
mental da libertação e a independência nacional.

A UPA iniciou a luta armada contra a colonização a 15 de Março de 1961, um mês depois do assalto dos nacionalistas do 4 de Fevereiro às cadeias de Luanda, afectos ao MPLA. O acto, de acordo com revelações de sobreviventes desta gesta, foi antecedido a 4 de Janeiro e igualmente a 4 de Fevereiro, com outras acções de impacto nas localidadesda Baixa de Kassanji, em Malanje,e Luanda, respectivamente.

A FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), como tal, foi constituída a 27 de Março de 1962, na sequência da fusão com outra formação, apenas de carácter político,o PDA (Partido Democrático de Angola).

A sua direcção tem sustentado ao longo dos tempos que foi o primeiro movimento de libertação de Angola a ser reconhecido internacionalmente, na Cimeira da OUA, no Cairo (Egipto), em 1963, através do GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio), seu órgão executivo, dirigido por Álvaro Holden Roberto.

A sua representação entrou na capital logo após a assinatura do cessar-fogo com as autoridades portuguesas, em finais de 1974, mas no quadro das escaramuças e desentendimentos entre os diferentes actores da luta de libertação, fez o recuo para o Zaire, regressando em força com um exército apoiado por tropas regulares zairense e mercenários que irromperam até as portas de Luanda (Barra do Dande, 32 Km).

Desbaratadas com o apoio de tropas cubanas, nunca mais a FNLA se recompôs; nem mesmo os novos ventos de abertura multipartidária foram aproveitados para a adaptação ao novo quadro de disputa do poder. As primeiras eleições realizadas de 29 a 30 de Setembro de 1992 representaram o início dos desentendimentos e do descalabro, ao conseguir eleger apenas cinco deputados. E o retorno da guerra só complicou esta inadaptação, agravada com o auto-exílio do seu líder, Holden Roberto, na França.

De conflito em confito, tem-se arrastado desde então. E agravaram-se com a morte de Holden Roberto, por doença, a 2 de Agosto de 2007, com 83 anos. Vários ‘herdeiros’ sentiram-se no direito de encabeçar mudanças e dividiram-se por duas alas: a de Ngola Kabango, tido como o delfim do velho Holden, e de Lucas Ngonda, que acabou por ganhar a cadeira de direcção, na sequência de recurso caucionado pelo Tribunal Constitucional, ao homologar os resultados de um polémico congresso extraordinário, em que venceu com 660 votos, contra 101 de outro concorrente, Carlinhos Zassala.

Apesar deste reconhecido judicial, ao abrigo dos estatutos, o seu mandato já terminou e prepara outro congresso.

Natural de Sanza Pombo (Uíge), onde nasceu em 1940, entrou para a FNLA em 1967, em Luanda, pela mão de André Paulo Nelembe (deputado na primeira legislatura) e esteve 25 anos no exílio, com Holden Roberto. Sustenta, em entrevista que nos concedeu, que as divergências na FNLA surgiram depois das primeiras eleições, por questões organizativas.

Cronologia

1962 - A 27 de Março, constituiu-se em Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA),

resultado da fusão com o PDA (Partido Democrático de Angola).

1963 - A FNLA foi o primeiro Movimento de Libertação de Angola a ser reconhecido internacionalmente, na Cimeira da OUA, no Cairo (Egipto), através do GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio), dirigido por Álvaro Holden Roberto

1974 - 11 de Outubro de 1974, a FNLA assinou um acordo de cessar-fogo com o Governo Português, pondo, assim, fim a uma longa e heróica luta de Libertação Nacional.

1975 - A FNLA foi a autora e co-signatária dos Acordos de Alvor, rubricados em Algarve, Portugal, a 15 de Janeiro, com o MPLA e a UNITA.

1991 - A 20 de Maio de 1991, organiza-se e institucionaliza-se como partido, nasequência do movimento de libertação e no quadro da democratização do país .

1992 - De 28 a 31 de Julho de 1992, a FNLA organizou, no Museu da História Natural, asua primeira conferência nacional dedicada à instituição e reorganização dos seus órgãos centrais e locais e esquematizar a sua participação nas primeiras eleições legislativas

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