Publié par fara

Uma viagem ao Bairro São Paulo. De buraco em buraco

Por Sedrick de Carvalho | Foto de Ampe Rogério

 

O trânsito é intermitente. Um autêntico pára-arranca, arranca-pára. Os buracos em quase toda a extensão da estrada não permitem uma marcha normal. Os automobilistas só usam uma mudança da caixa de velocidades: A primeira. O desgaste da paciência e dos veículos é uma constante.

 

Um pouco ao contrário das outras vias da capital, no largo do São Paulo, distrito urbano do Sambizanga, a marcha é sempre lenta. "Como se estivéssemos num cortejo fúnebre", queixam-se os automobilistas.

A causa, apontada sem rodeios pelos que ali circulam, são os muitos buracos ao longo da via, tanto no sentido ascendente como descendente. O péssimo estado da via prejudica não só quem tem de a atravessar para se deslocar a outros pontos da capital, mas também todos os que ali residem ou trabalham.

Joana Rodrigues, funcionária de um banco situado ao lado do cine São Paulo, lamenta a odisseia que tem de enfrentar todos os dias. "Já tive muitos problemas de atraso devido ao engarrafamento nas nossas estradas, mas este troço (estrada do São Paulo) é onde mais perco a paciência. Já danifiquei a minha viatura várias vezes", lamenta.

Devido à crescente degradação da via, após dois anos a trabalhar no bairro, Joana Rodrigues conta que desistiu de enfrentar os buracos e agora deixa o carro a muitos metros do local de trabalho, precisamente na Escola Nova. Prefere fazer o resto do percurso a pé até ao posto de trabalho. "Para evitar estar constantemente a reparar a viatura, decidi começar a deixar o carro na Escola Nova e, desde então não tenho tido muitos problemas, mas, ao mesmo tempo, é cansativo andar dali até ao trabalho", acrescenta.

COMERCIANTES LESADOS

No sentido em direcção ao bairro Cuca, defronte à loja de vestuário Morex, o cenário não é diferente. Além dos proprietários de estabelecimentos, quem também acaba por ser vítima do mau estado geral da via são os clientes. Conhecida por comercializar "roupas da moda para jovens", a afluência ao recinto é bastante elevada, como se pode observar no local. Paula Menezes, residente no bairro Vila Alice, distrito urbano do Rangel, garante que, mesmo tendo a loja como favorita, em vários momentos, evita deslocar-se àquele espaço devido "aos buracos na via".

"Anteriormente vinha aqui muitas vezes para comprar algumas roupas, mas agora venho pouco por causa do estado dessa estrada. Mas, quando ganho coragem, venho de táxi, porque sempre que colocava o carro nessa estrada partia o tubo de escape ou roçava o pára-choques", explica a jovem.

A contribuir para afugentar os clientes desta e demais lojas ao redor estão também os vendedores ambulantes que, quase no meio da estrada, comercializam diversos produtos mesmo defronte aos estabelecimentos, sem se importarem com as viaturas, nem com os buracos.

"ENGARRAFAMENTO SEM MOTIVO"

Numa marcha lenta, surpreendemos Osvaldo, motorista de um Hyundai, modelo Accent, a gritar para um taxista para que estacionasse devidamente a viatura para permitir a passagem. Como se não bastassem os buracos e as zungueiras, diz o jovem, os taxistas ainda efectuam paragens em qualquer lugar, demonstrando autêntica falta de respeito pelos demais automobilistas.

Sem sair da viatura, a marcha lenta imposta pelo estado do piso ainda permitiu que Osvaldo contasse que fez quase 20 minutos para se movimentar entre a loja Moda Jovem e as bombas de combustível da Sonangol, adjacente à loja Morex.

"Aqui nem há motivo para estar engarrafado a esta hora (10h00), mas o estado da estrada obriga a reduzir a velocidade e, desta forma, o trânsito concentra-se e o resultado é esta confusão", frisa Osvaldo.

PEDAÇOS DE ASFALTO

Outro troço do famoso bairro São Paulo da Assunção de Loanda (outrora denominação oficial da cidade de Luanda) é o que liga o bairro ao Miramar, passando pelo prédio do Livro. O pedaços de asfalto em quase toda a extensão da estrada, na opinião dos automobilistas, apenas agravam a situação, pelo que seria melhor que todo ele fosse retirado, transformando o troço, de uma vez, numa picada. "Os pedaços de asfalto na estrada só pioram as coisas.

Já temos os buracos em exagero, agora, quando colocamos um pneu na metade de asfalto e o outro na terra batida é o mesmo que passar por um buraco", referiu o automobilista Hélder de Sousa. Os passageiros dos "azuis e brancos" reclamam dos taxistas, mas, no final, entendem que não é vontade dos motoristas efectuarem a marcha lentamente. Para muitos a culpa nas longas filas de trânsito "não está nos condutores, mas sim na estrada" [ou no pouco que resta dela].

"Não está nos planos deles [Governo] repararem essa estrada", atira uma passageira de um "candongueiro" [táxi informal]. Outro junta-se à conversa e remata: "Eles primeiro querem ter dinheiro, mamã. Se eu estivesse lá [no Governo] também me preocuparia primeiro em ter dinheiro". Por coincidência, a reportagem do Novo Jornal cruza-se com um camião-cisterna imobilizado no meio da estrada, defronte ao mercado com o nome do bairro. Numa breve troca de impressões com o motorista, Brandão Matusa, de 37 anos, começa por dizer que o veículo, de marca Volvo, está avariado desde o último sábado, dia 29, e que a avaria deve-se a problemas com a mola do pneu da frente, do lado esquerdo.

"Eram aproximadamente 07h30, quando a mola se soltou e sem resolver essa maka [problema] não consigo andar para lado nenhum", lamenta o homem, apontando o estado da via como a origem do problema. "Não é a primeira vez que isto acontece. Já é normal. Enfrentar todos os dias esses buracos é o mesmo que estragar o carro", frisa. Afirmando ter "autoridade suficiente para falar sobre a via", Brandão Matusa informa que poucos acidentes são registados no referido espaço. Segundo o camionista, os buracos evitam muitos incidentes entre automóveis, e conclui: "Isto é só porque não circulam muitos camiões" nesta estrada.

PARAGEM CONCORRIDA

Defronte ao portão do cine São Paulo - actualmente transformado em sala de espectáculos musicais, festas e cultos religiosos - taxistas realizam o embarque e desembarque de passageiros oriundos de vários pontos da capital. Para ali chegarem, contam alguns taxistas, têm de enfrentar os buracos, "como se não bastasse a gasosa que se vêem obrigados a pagar aos polícias".

O percurso mais difícil de concretizar, segundo classificação dos taxistas, é o que liga o São Paulo ao Roque Santeiro. "Mal saio da paragem do Roque, começo a levar com os buracos, depois da OMA até à paragem do cine São Paulo. Quando descarrego o carro, e enquanto o cobrador está a chamar os passageiros, aproveito para relaxar os pés", diz Mano, enquanto aguarda que os passageiros se vão acomodando no interior do "azulinho".

Quem realiza o serviço de táxi no trajecto São Paulo-Combatentes- -Congolenses também considera o percurso como um dos mais difíceis. "Anteriormente, o que mais nos dificultava a vida eram os buracos que estavam frente ao hospital Américo Boavida, mas agora, sem dúvida, são os buracos do São Paulo", afirma Alex, taxista que também se faz porta-voz do inconformismo e, ao mesmo tempo, da resignação.

"Ainda assim esta é uma das piores áreas para trabalharmos, mas ao mesmo tempo, somos praticamente obrigados a vir para aqui (São Paulo) por causa das necessidades dos passageiros", diz. Em frente ao cine São Paulo situa- -se também a paragem dos táxis provenientes do Nzamba 2, Mutamba e da Cuca. Sem hesitarem, os automobilistas asseguram que não sentem o retorno do pagamento das taxas de circulação cobradas anualmente. Esclarecem que há cerca de cinco anos que a referida via não beneficia de "obras de reparação, no verdadeiro sentido da palavra".

Às vezes o troço é "brindado" com algumas "operações tapa buracos", protagonizadas por elementos, alegadamente afectos à administração do distrito. Mas, em menos de um mês e por vezes, "depois de São Pedro mandar a primeira chuva", os automobilistas voltam a circular em marcha lenta por cima dos buracos, rezando para que São Paulo faça algum milagre.