Publié par fara

É manhã de segunda-feira. Pelas ruas do município do Cazenga, o Sol despontou mais cedo e é visível a correria das pessoas que, a largos passos, rasgam as ruelas alagadas e lamacentas ao encontro do asfalto.

É dia de trabalho e a preocupação de quem tem um emprego é chegar mais cedo. Numa esquina, sem nenhuma preocupação pelo tempo,está Sousa Moreira, de 26 anos, que se prepara para mais um dia de copos no quintal da tia Jú, uma conhecida comerciante de bebidas alcoólicas. Com um metro e 75 de altura, corpo magro, Sousa conta, no primeiro contacto com o Novo Jornal, que é uma pessoa de poucas falas. Mas, quando se trata da sua situação social, o jovem diz ter "muito pano para mangas".

Técnico de contabilidade e gestão, Sousa conta que foi atirado para o desemprego porque a empresa onde trabalhava apostou em mão-de-obra estrangeira. Para não se sentir frustrado e já que no bairro onde reside não há espaços onde possa aproveitar os tempos livres, fazendo alguma coisa de jeito, o jovem diz que prefere parar no quintal da tia Jú. "Aqui, na tia Jú, esqueço todos os meus problemas. Desde que estou desempregado, bato em várias portas à procura de emprego e ninguém atende. Este país não está bom para gente como nós que todos os dias vê o seu caminho barrado por não ter padrinhos na cozinha. É lamentável, não é justo, meu irmão", queixa-se.

Enquanto a conversa flui com Sousa Moreira, Paulo, de 28 anos, interrompe para dizer que desde que finalizou o ensino médio não consegue emprego na sua área de formação. E os que aparecem exigem muitos anos de experiência. "Para esquecer essas cenas, prefiro vir aqui na cinquentinha. Bebo as minhas cervejinhas e assim não me chateio", declara. Num outro ponto de Luanda, no distrito urbano do Rangel, vive Roger, de 30 anos, que já não se lembra bem há quanto tempo se encontra desempregado.

Segundo afirma, cada vez mais se convence de que as oportunidades, infelizmente, não são para todos. Já distribuiu o seu curriculum em tudo quanto é canto, mas, mesmo assim, a sorte nunca lhe sorriu. "Já tentei encontrar a solução no álcool, mas recuei. É muito difícil essa vida. Os meus dias passam mesmo assim, sem nada para fazer. É triste, mas não há como dar a volta à situação, já que somos uma geração abandonada pelo governo", atesta.

Os exemplos de Sousa, Paulo e Roger reflectem a real situação de muitos jovens do país. Em qualquer ponto da cidade, com destaque para os bairros periféricos, é possível ver e ouvir as preocupações da juventude. A falta de emprego, o difícil acesso à educação e o problema da casa própria estão na linha da frente das preocupações desta franja da sociedade. O alcoolismo, a prostituição, a delinquência, entre outros males, têm sido, para muitos, a via mais fácil de ver a "vida a passar".

Uma situação que, de acordo com a educadora social Teca de Jesus, tem um respaldo negativo na própria sociedade. "Uma sociedade com muitos jovens desempregados é uma sociedade instável. Infelizmente, o nosso país está a caminhar a passos largos nessa direcção, porque há muita malta jovem desempregada que deambula pelos bairros sem nada fazer. É um perigo porque a qualquer momento podem recorrer a práticas maldosas", alerta.

De acordo ainda com Teca de Jesus, não há como exigir uma conduta socialmente correcta a uma "juventude esquecida" que não encontra alternativa na própria so-ciedade para conseguir enfrentar as suas preocupações. "Num mundo cada vez mais agitado, onde tudo se paga, como vamos ter jovens socialmente responsáveis, quando não se dá o mínimo de apoio? É impensável, frustrante até", diz.

"Não é bem assim"

Uma fonte ligada ao Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social fez saber que os jovens angolanos não estão abandonados. Antes pelo contrário, são partes importantes do processo de reconstrução que o país tem vindo a fazer, desde o término do conflito armado, em 2002. A fonte, que não quis identificar-se, disse que há vários projectos criados pelo Governo, onde os jovens são tidos como parceiros e são os principais beneficiários.

"O país tem muitos desafios. E os jovens não podem esperar que as coisas caíam do céu. É preciso ir à busca das oportunidades, até porque Angola precisa de todos os seus filhos. Entretanto, temos um Ministério da Juventude e Desportos que tem a responsabilidade de criar políticas que beneficiem os nossos jovens, entre os quais o Programa Angola Jovem, que, na verdade, é um projecto inclusivo e de grande importância. Portanto, não entendo quando as pessoas vêm dizer que o Governo se esqueceu da juventude. Não é bem assim e nem é verdade", esclarece.

O também jurista avança que no ministério onde labuta também são muitos os programas criados para melhorar o bem-estar dos jovens, com a criação de emprego e formação profissional. "Temos, por exemplo, os Centros de Emprego que, em toda parte do país, prestam assistência aos jovens. Desde que foram criados estes centros têm vindo a encaminhar centenas de candidatos para os mais diversos sectores", assegura.

Via N.J

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